Discurso de Agradecimento

Vicente Miranda*

Senhoras e Senhores, amigos, familiares, caros colaboradores aqui presentes, que representam os ausentes por força dos seus afazeres; muito obrigado pela vossa presença a esta cerimônia tão significativa para mim.

Também agradeço as inúmeras mensagens que recebi daqui e de Além Mar, telefonemas com justificativas, todas plenamente aceitáveis. E é ainda com o tom do agradecimento que prossigo por ter sido distinguido nesta solenidade, com o título de Cidadão Recifense por iniciativa do ilustre Vereador Gustavo Negromonte e aval desta Câmara conforme Dec. Legislativo 481/2009 que originou o ofício 322 de 24 de Fevereiro de 2010, comunicando-me que o título seria entregue em data a combinar, como acontece nesta sessão.

Sair do meu reduto e trabalhar na cidade, foi um desejo que nasceu bem cedo; aos 14 anos, já estava na cidade de Aveiro, dando os primeiros passos como comerciário.

Como escreveu Carlos Pena Filho, “É dos sonhos dos homens que uma cidade se inventa” e Aveiro fazia parte dos meus sonhos. Para quem não sabe, Aveiro tem muito a ver com o Recife: pontes, canais, mar, sal e a boa gastronomia. Não entendo como ainda não é geminada com Recife. Aqui fica lançada a idéia aos vereadores que compõem esta Casa. E agora, como Cidadão Recifense, já me coloco ao serviço da Câmara para ajudar nessa tarefa.

E ainda ao lembrar Recife, recordo novamente Carlos Pena Filho, esse luso descendente cujos pais eram de Vila do Conde e onde ele viveu boa parte de sua infância:

“No ponto onde o mar se extingue,
E as areias se levantam,
Cavaram seus alicerces
Na surda sombra da terra
E levantaram seus muros
Do frio sono das pedras.

Depois arrumaram seus flancos
Trinta bandeiras azuis
Plantadas no litoral
Hoje, serena flutua
Metade roubada ao mar
Metade à imaginação
Pois é do sonho dos homens
Que uma cidade se inventa”.

Senhores Vereadores, amigos que me deram o prazer de comparecer a este evento que tanto me honra, referindo-me ainda ao Recife, não me contenho ao reproduzir um trecho do livro “Ideias e compromissos” da autoria do Amigo Joaquim Francisco:

“ Nascida à sombra de um porto natural, contrastando em sua primitiva singeleza com o esplendor e o fausto de Olinda, Recife transformar-se-ia sucessivamente em vila, cidade e capital - na grande metrópole dos nossos dias. Já pouco tem a ver com os traços e contornos da humilde povoação de pescadores que lhe deu origem. Mudou pela iniciativa dos homens, no coração político, econômico e intelectual. Esta é a cidade/cidadela, que nunca se dobra à dominação de quem quer que seja, palco de atos de heroísmo e de exemplos de brasilidade. Guararapes e Casa Forte, Frei Caneca e Joaquim Nabuco”.

E mais adiante, afirmou o grande Olegário Mariano: “ A cidade a surgir das águas do mar, debruçada sobre o Atlântico e envolvida pelos mil braços do Capibaribe/Beberibe, Recife é bem a imagem da cidade/beleza e da cidade/desafio”.

Vocacionada para receber o fluxo contínuo dos que vem de outras paragens, tantos que como eu para aqui vieram em busca da realização dos seus sonhos. Às vezes, apesar do forte pólo turístico que temos, aliado ao comércio crescente, bem como indústrias e uma construção civil marcante, bem como um pólo médico de causar inveja, não são suficientes para gerar empregos e renda capazes de evitar a elevada taxa de desemprego ou atividades informais que acabam por manchar o cenário ideal e que nossa cidade merece. Para encerrar esta parte, cito o texto do Papa João Paulo ll, quando em Julho de 1980 visitou uma favela no Rio de Janeiro: “_ Se conheces muito e estás colocado no alto da hierarquia social, não te deves esquecer, nem por um segundo, de que quanto mais alto alguém está, mais deve servir”.

Como consta na minha história de vida, deixei a minha terra natal no dia 14 de Dezembro e cheguei na manhã do dia 21 do mesmo mês. Com apenas 17 anos de idade, não é fácil para qualquer um, sair de sua aldeia Alquerubim e rumar para Recife/Brasil para iniciar uma nova, totalmente nova, forma de vida. Os familiares aqui radicados, como o meu primo António Reis e sua esposa Nininha, meu irmão José Miranda, meu amigo/irmão Manuel Tavares, as famílias de Artur Valente, Graça Tavares e João de Souza Miguel, para citar apenas estas, foram fundamentais para amenizar as saudades e colaborar no sentido de me orientarem permanentemente, com relação aos usos e costumes da nova Pátria, que, mesmo de modo inconsciente, já ia adotando, na medida em que era aceite no trabalho, na convivência com os brasileiros, cujo jeito e modo de vida logo assimilei com facilidade.

O tempo foi passando, a luta foi imensa e só em 1966, quando tinha 26 anos e depois de 9 no Brasil, já estabelecido numa sociedade com meus irmãos, me foi possível tirar férias e voltar a Portugal!...Que emoção ao chegar à minha aldeia, rever meus pais, avós e demais familiares, os amigos e conhecer o país como deveria ser, além de excursionar pela Europa, renovara a visão que tinha do meu mundo, participar de troca de informações e experiências vividas, bem como fazer novas amizades e depois de quase 90 dias, voltar ao Brasil e retomar minhas funções.

Em 1968, casei-me com Fátima e temos três filhos: Cláudia (hoje casada com Frederico), Alexandre (que também contraiu matrimônio com Alessandra) e Adriana. Os meus pais que residiam conosco faleceram, mas em compensação, os netos foram chegando para dar mais alegria ao nosso lar.

Prezados amigos:

Recebi muitas mensagens, mas como não posso reproduzir todas, escolhi uma que ao ser aqui inserida, passa a representar todas as que me chegaram às mãos;

“ Caro primo: Foi com um misto de orgulho e alegria que recebi o convite por ti endossado, oriundo do Sr. Presidente da Câmara Municipal do Recife, assim como do Vereador Gustavo Negromonte...Desta vez, não poderei estar presente, física, mas estarei espiritualmente. Eu poderia argumentar que peca por tardio esse agradecimento, mas não. Na minha opinião, veio na hora exata. Quem contigo lida, felizmente como eu, como alguma assiduidade, há muito que reconhece o teu Recifencismo bairrista, sempre defendido com bases sólidas, onde são perceptíveis os vastos conhecimentos sociais e políticos do meio que te rodeia há mais de meio século. Quando da tua ousadia, em 1957, sendo eu ainda criança, de te aventurares numa emigração para solo brasileiro, a tua família, saudosa ficou pela tua ausência. Mas, se nesse tempo pudessem prever o sucesso que irias ter, sempre baseado no trabalho e afinco que foi baluarte na tua vida profissional, essas saudades seriam reduzidas porque embora longe de tua terra natal, soubeste criar uma nova família, onde indiscutivelmente se enquadra a cidade do Recife, que tão bem te acolheu e agora, publicamente, vem dizer ao mundo, que embora o teu nascimento tenha sido neste pequeno Alquerubim, à beira do rio Vouga situado, o teu coração e o teu reconhecido orgulho estão nessa bela cidade do Recife.
Essa mesma cidade que te recebeu de braços abertos e agora com amor os fecha, como uma mãe para abraçar o seu filho recém nascido. Parabéns para tí para todos os teus, mas também, parabéns ao Recife, orgulhoso por ter um filho assim.
Um abraço, João Reis de Melo e família”.

Diante disto, nada mais tenho a dizer.

Muito obrigado.

* Vicente Miranda é presidente do Gabinete Português de Leitura e Cidadão Recifense

 

Discurso pronunciado em 08 de abril de 2010, na Câmara Municipal do Recife por ocasião da solenidade de recebimento da Cidadania Recifense