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No último 28
de agosto, cinco anos após a promessa feita na campanha que o levou ao
Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto 6198,
recriando a Sudene. Se não fossem os vetos presidenciais à Lei de
Recriação, a população nordestina teria motivos para estar nas ruas, em
festa, comemorando a retomada do instrumento que lhe fora roubado em maio
de 2001 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Nunca é demais
lembrar, que, em gesto truculento e demagógico, Fernando Henrique Cardoso
extinguiu a antiga Sudene, desmontando o único órgão efetivo de
planejamento que ainda existia no país, promovendo a diáspora do excelente
corpo técnico que servia ao órgão e abrindo caminho para a destruição do
magnífico acervo construído ao longo de mais de 40 anos de estudos e
pesquisas.
Ao sancionar a
Lei Complementar nº 125, em 03 de janeiro de 2007, o presidente Lula
mutilou o projeto aprovado por unanimidade pela Câmara dos Deputados,
vetando, inclusive, o dispositivo que, cumprindo o artigo 165 da
Constituição Federal, estabelecia a regionalização do Orçamento Nacional,
equiparando o percentual dos investimentos federais na região [que gira
tradicionalmente em torno de 13% do valor total do Orçamento da União] ao
percentual da população nordestina no conjunto da nação [que equivale a
cerca de 28,3% da população nacional]. Além disso, o presidente Lula
também descaracterizou o projeto original, vetando os artigos que tratavam
dos incentivos fiscais e financeiros; da transferência dos recursos
orçamentários da extinta Adene para a nova Sudene (que a sucedeu); da
estabilidade dos recursos destinados à região (determinando que os
recursos do FDNE não cairiam em exercício findo, nem estariam sujeitos a
contingenciamento, contenção e/ou diferimento); da dotação, ainda em 2007,
de R$ 1,027 bilhão para a região (este valor seria, a partir de 2008,
acrescido anualmente do percentual relativo à variação da receita corrente
líquida); e, ainda, da criação da empresa BNB-Par, que serviria de
instrumento de financiamento na forma de capital de giro para as empresas
do Nordeste. Com estes vetos presidenciais antinordestinos, a Sudene
ressurge fraca, sem força política e sem recursos financeiros.
A nova Sudene
não tem o garbo nem o viço daquela imaginada por Celso Furtado e criada
pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1959. Naqueles tempos de prestígio
do planejamento econômico, a Sudene funcionava como uma espécie de farol
que apontava caminhos que poderiam levar desenvolvimento à região e seu
Conselho Deliberativo, que mensalmente reunia em Recife todos os
governadores do Nordeste, constituía o terceiro foro político mais
importante do país, atrás apenas do Congresso Nacional e do Palácio do
Planalto. Graças aos anos de abandono do precioso espólio da velha Sudene
e aos vetos antinordestinos que mutilaram a certidão de nascimento do
órgão, a nova Sudene – que poderia emergir em campo fertilizado pela
experiência acumulada pela antecessora – nasce sobre escombros de um nada,
sem memória e sem história. Fora o nome, da Sudene original, pouco restou.
A competência dos antigos funcionários escoou pelo ralo das aposentadorias
ou foi exilada para salas e corredores distantes. Estudos e planos
desenvolvidos em anos e anos de pesquisas serviram de abrigo para ratos e
alimento para traças. A imponente sede, que refletia a importância do
órgão, foi esquartejada e distribuída a quem mais ofereceu.
Em tempos
marcados pela atmosfera liberal, em que os rumos da economia são ditados,
não por objetivos de longo prazo estabelecidos por planos de governo, mas
pelas pressões de curto prazo ditadas pelo mercado, a nova Sudene
ressurge. Sem sede, sem experiência, sem recursos, subordinada, não ao
presidente da república como nos velhos tempos, mas ao ministro da
integração nacional. Não foi à toa que a entidade efetivamente parida pelo
Palácio do Planalto não empolgou as classes econômicas e políticas da
região. Uns, como o deputado Armando Monteiro Neto, presidente da
Confederação Nacional da Indústria (CNI), reclamam que a Sudene não
deveria ser recriada apenas para atender “uma coisa nostálgica”, outros,
como o engenheiro Sebastião Campello, presidente do Centro de Estudos do
Nordeste (Cenor), apontam a impotência da nova Sudene, e afirmam que, se
ela ressurgisse forte, ao invés do pífio crescimento de 3% observados
desde a extinção da autarquia, a região poderia crescer ao ritmo de 10% ao
ano.
Inconformismos à parte, o leite está derramado. E, diante da situação
concreta que foi instalada, é importante que, ao lado da luta das classes
dirigentes pelo restabelecimento dos dispositivos vetados pelo presidente
Lula, a sociedade nordestina se mobilize para ungir como objetivo da nova
Sudene, não o mero crescimento econômico, que enriquece uns poucos, mas o
desenvolvimento sustentável e includente, que leva bem estar a todo o
povo.
Queremos um
nordeste próspero e os nordestinos, todos eles, felizes.
Esta é a
missão da Sudene que queremos.
Texto publicado no Blog do Magno.
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