Fundação e Posse dos Acadêmicos Fundadores


Savatil Lôbo*

(1) Comecemos por parafrasear uma pergunta que dá título, a um dos livros do escritor e crítico literário Afonso Romano de Sant’Anna; pergunta esta, feita quando do Romantismo Brasileiro, por José de Alencar, e mais tarde, por Machado de Assis, já no Realismo; e por fim, por um jovem ícone da música popular brasileira, Renato Russo, no séc. XX, precisamente nos anos 80 – “QUE PAÍS É ESTE?” – nossa paráfrase é: “QUE DIA É ESTE?”

E para falar deste dia desejamos traduzi-lo em três palavras – Este é o dia Magnânimo, Memorável e Magnífico; Magnânimo – porque é grandioso em seu ideal, e expressa a grandeza de alma de seus Acadêmicos; Memorável – porque ficará na memória dos que aqui chegaram, e será escrito nos anais desta cidade que hoje renasce; e Magnífico – porque esplende em beleza, em suntuosidade e em excelência daquilo que é bom, para enaltecer e dignificar o homem; O dia da Fundação da Academia Escadense de Letras.

(2) Mas, alguns perguntarão: “O que é e a que se propõe uma Academia de Letras?”

Uma Academia de Letras fomenta em seu reduto a expressão de uma cultura voltada para o aprimoramento do saber e da palavra enquanto Arte; abriga poetas, escritores, ensaístas, cientistas, filósofos, juristas; somos então uma sociedade de caráter literário, científico, artístico, e filosófico; temos o compromisso de esclarecer as mentes, alimentar idéias, leituras seletivas, ajudar na produção da palavra artística; sem deixar de proclamar as inquietações sociais próprias de um novo século, no campo político, social, religioso e, também estético.

(3) Passemos à origem da nossa cidade.

Data de 1589 as primeiras aldeias indígenas aqui existentes. Os jesuítas tinham a missão de catequizar os índios encontrados, que eram conhecidos à época como: Mariquitos, Tabajaras e Potiguares. A denominação do nome “Escada” surge quando um jesuíta resolve erguer no alto do morro, um nicho para uma imagem de Maria, e escavou numa das encostas uma escadaria no barro, daí o nome “Nossa Senhora D’Apresentação da Escada”. Com o desaparecimento dos índios da aldeia de Escada, e com o crescimento da população nos arredores da missão, formou-se o povoado, e no local, onde outrora fora erigido o nicho, formou-se uma Capela sob o mesmo nome, a qual serviu de Igreja Matriz, por um longo tempo, até que em seu lugar fosse edificado o atual templo em 1874.

Vieram os Engenhos e as Usinas de cana-de-açúcar; os Engenhos, entre eles: Alegria, Campestre, Canto Escuro, Conceição, Firmeza, Refresco, Sapucaji e outros. Também as Usinas que surgiram, no início da República, após o fracasso dos engenhos centrais, como: Barão de Suassuna, Liberdade, Massauassu. Data de 24 de maio de 1873, a sua elevação à comarca e cidade, e hoje, completa 137 anos, de sua emancipação política. (segundo o livro Escada – Riqueza de Pernambuco, do Acadêmico, hoje empossado o Dr. Luís Minduca, é dele o poema: Escada). Escada tem a perífrase de: “Princesinha dos Canaviais”; quem aqui nasceu ou nela viveu sua infância, lembra dos banhos no rio Ipojuca; do barco atrelado à margem do quintal para os passeios vespertinos, das corridas de bicicleta da ladeira do comércio até à estação de trem, dos bois bravos que fugiam do matadouro velho, às sextas feiras, e eram a diversão da criançada; quem não lembra das Minas d’água, das caças em uma fauna e uma flora exuberantes?; dos araçás, das pitangas, azeitonas, e dos jabuzeiros que rodeavam a prefeitura. Ah! O Ginásio Nossa Senhora da Escada; quem não lembra da Madre Eucaristia? Das irmãs Leônia e dos Anjos, e até do esqueleto das aulas de ciência, que chamávamos Carlito? Dos primeiros mestres – do professor Cláudio, matemático, filósofo e poeta, que nos inspirava a todos; do professor Lôbo, que nos ensinava inglês, história, educação física e filosofia, estudioso pertinaz do idioma russo; autor do livro “Catende e Eu” e patrono da Cadeira nº04, meu pai! Da professora Vanilda Lôbo; mestra incansável, que aqui chegou em 1956, fincou raízes, e dedicou 45 anos de sua vida profissional a esta cidade, e que (acaba de receber o título de cidadã escadense) escreveu sua história por entre as ladeiras desta cidade, e agora... pediria um salva de palmas para ela, minha mãe!

Hoje, Escada cresceu; segundo o último censo do IBGE, tem 54.000 habitantes, mas já somos estimados em 70.000 habitantes.

(4) Passemos à Casa Tobias Barreto.

A escolha do patrono da Cadeira nº01, Tobias Barreto, devemos à historiadora, Mariinha Leão, que cultiva um terno respeito, à pessoa do filósofo, crítico, poeta e jurista brasileiro; fundador do condoreirismo e patrono da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras.
Nascido a 7 de junho de 1839 em Vila de Campos do Rio Real, Sergipe, em 1861 chega à Bahia; de 1854 a 1865, o jovem Tobias, para sobreviver deu aulas particulares.

Em 1867, vence em concurso à vaga de professor de Filosofia, mas é substituído por outro; publica nessa época “Os Enigmas do Universo” e “As Maravilhas da Vida”. No campo das produções poéticas, competia com o poeta baiano Antônio de Castro Alves;
Por ser mestiço, teve sua vida amorosa conturbada, numa época cheia de preconceitos conforme o crítico Sílvio Romero;
Na oratória Tobias se revelava um mestre, qualquer que fosse o tema escolhido;
Antes de concluir o curso de direito casou-se com a filha de um coronel do interior, proprietário de engenhos no município de Escada;
A residência em Escada durou cerca de 10 anos, nos quais, dedicou-se a aprofundar-se no estudo do Alemão;
Publicou os estudos filosóficos “Tomás de Aquino” e “Teologia e Teodicéia não são Ciências”, e ainda “Jules Simon”. Foi em alemão que Tobias redigiu o “Deustscher Kampfer” (O lutador alemão). Mais tarde, saíram de sua pena os “Estudos Alemães”. Em 1889, uma semana antes de morrer, escreveu uma carta ao amigo e ensaísta Silvio Romero solicitando ajuda, mas faleceu 7 dias depois, hospedado em casa de um amigo.

A obra de Tobias é de significante valor, e Hermes de Lima, ao comentar o refúgio dele em Escada, esclareceu: “Em Escada, além de publicar o “Fundamento do Direto de Punir”, é onde elabora sua posição filosófica, que traça as coordenadas da revolução espiritual que viria a deflagrar-se no país”. Hoje, em sua homenagem, a Faculdade de Direito de Recife é carinhosamente chamada de “A Casa de Tobias”. Um dos anseios de Tobias era fundar o Clube Popular Escadense (1877), cujo objetivo era aguçar o intelecto da pequena Vila de Escada.
Apresenta nos veículos de comunicação, como crítico, 3 perfis:
- O de jornalista – pelo cuidado em levar informações verdadeiras ao leitor;
- O de curador – pela luta incansável contra as injustiças aos órfãos, razão de protesto e de luta;
- O de intelectual – criando e difundindo um clube, a fim de solucionar os problemas da comunidade escadense. Enfim, a luta pelo direito do povo foi mais forte que a de sua própria profissão. Sua presença em Escada, foi marcada pela obstinação, na luta contra as autoridades e ricos da cidade. Ficou-nos a sua imagem de quem tentou passar a limpo este País, a partir de uma pequena cidade do interior de Pernambuco.

Esta Academia Escadense de Letras, presta-lhe hoje, mais uma homenagem, a de imortalizá-lo como patrono da Cadeira nº01 – da historiadora Mariinha Leão, e ao mesmo tempo, honrá-lo nomeando esta Academia, como: “Casa Tobias Barreto” → a ele nossa imensurável gratidão.

(5) Desejo agora, falar um pouco acerca de nós, Acadêmicos empossados − num tempo não muito distante dos anos que ora correm, um grupo de pessoas decidiram criar uma Academia de Letras para abrigar as vozes personalíssimas, de timbre inconfundível, e que sozinhas definem seu espaço e seu universo, independente do tempo em que vivem.

Eram 5, juntei-me a eles; um médico, um advogado, um cordelista, um jurista e duas professoras:

- O médico → jovem pertinaz em alcançar seus ideais, perseguiu este sonho, e sem intimidar-se com os desanimistas, correu ainda mais atrás do sonho e contagiou os outros − O Dr. Luís Minduca.

- O advogado → que mesmo trabalhando entre pilhas de processos, em seu escritório em Recife, nunca esqueceu sua terra, e para ela desejou um “cenáculo do saber” − O Dr. Sebastião Araújo.

- Um cordelista → aquele sempre presente nos eventos, nas escolas, na Faculdade, que a todos encantava com seu martelo cadenciado, com que atacava a inércia dos escadense − O poeta Valdecí Leocádio, que trouxe consigo a descendente indígena sua esposa.

- Um jurista → que por amor à Literatura, estava sempre em contato com eles, estimulando, orientando e perguntando “Quando faremos a Academia de Letras?” − O Dr. Juiz de Direito, Arnaldo Spera.

- Duas professoras → uma, historiadora nata, outra ficcionista, que partiu para longe, mas nunca esqueceu a infância das ladeiras, e o desejo de criar uma casa literária, onde a cultura tivesse livre curso − Mariinha Leão e Sevatil Lôbo; e vieram os outros, juntaram-se a nós! E portanto, para todos nos acadêmicos, é muito mais que o sonho concretizado, e por isso, determinamo-nos a seguir em frente, côncios de que “Escrever é comunicar aos outros que eles não estão sós.”

(6) Nosso brasão → Traz em seus símbolos a história passada e a por vir. Nele estão representados a antiga opressão aos índios aqui encontrados, sendo suas lanças fincadas na Escada, com as pontas para baixo e para cima, como a gritar, que hoje não é mais tempo de opressão. A escada simboliza a nossa própria cidade, que tendo seus degraus calcados nas correntes, fala dos negros aqui oprimidos nos engenhos de cana-de-açúcar, que foram decantados pelos poetas do abolicionismo; a cana-de-açúcar, fala dos engenhos, das usinas, da cultura açucareira, antes a principal; o livro e a pena, são as letras de idéias eternas, pelas quais os homens lutaram ontem, lutam hoje, e lutarão amanhã. No contorno, estão as palmas da sabedoria acadêmica.

(7) Nosso lema traduz um verso, do poeta Carlos Drummond de Andrade; ‘LUTAR COM PALAVRAS’; gostaria, neste momento, de encontrar a metáfora mais linda, que pudesse descrever a realeza e importância deste lema, pois que o imaginário filosófico e literário que envolve sua profundidade é indizível.

O que pedimos aos escadenses? Lutem com palavras! Afinal, lutar com palavras:

1 – É abolir a ignorância!
2 – É quebrar os grilhões!
3 – É vencer os obstáculos!
4 – É dar asas para a Liberdade!
5 – É transformar vidas!
6 – É alimentar sonhos!
7 – É defender um ideal!
8 – É suavizar realidades tristes!
9 – É abrir olhos a cegos!
10 – É fazer crer no impossível!
11 – É vencer o vencedor!
12– É também, ser poeta, escritor, cientista, filósofo, historiador, é ser alguém que sabe, que o mundo seria escuro e frio, sem a Palavra!

Enfim, ... lutar com palavras ... é contentar, deleitar, encantar, alimentar e alegrar a alma dos homens!

(8) Dificuldades – surgiram inúmeras; daqueles que defendem até hoje, tendo suas almas ainda na escuridão, o lema oposto: “nada em Escada vai pra frente”. Hoje amigos! Cai por terra esse pensamento tacanho! Escada − tem agora, uma Academia de Letras!

(9) Agradecimentos – “Que são os grandes impérios sem a justiça?” Advertia-nos Santo Agostinho – “Apenas imensos latrocínios!” E a justiça mais justa é a divina. Queremos agradecer a Deus, “...Em quem estão escondidos os tesouros da Sabedoria e da Ciência”. Ele, que um dia ao ser inquirido por Jô, perguntou “Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? Faze-mo saber, se tens inteligência? Quem encerrou o mar com portas e ferrolhos e lhe disse: Até aqui virás, e aqui se quebrarão as tuas ondas enpoladas? Onde está o caminho da morada da luz? E quanto às trevas, onde está o seu lugar? Decerto, tu o sabes”. A Ele, o nosso Criador, razão maior de nossas vidas – horas, glórias e louvor!

(10) Fica uma mensagem final, desta Academia; que se encontra nos versos de Castro Alves, no poema “O Século”:

“Que os fracos recuem cheios de horror.
A vós, herdeiros dos Gracos,
Traz a desgraça – valor!
Lutai... Há uma lei sublime!
...Marchai.

Obrigado a todos!!!
 

                                                                                                         Escada, 24 de maio de 2010

Discurso proferido por ocasião da solenidade de fundação e posse dos acadêmicos fundadores da Academia Escadense de Letras.

(*) A acadêmica Savatil Lôbo é professora