Academia de Letras e Artes do Nordeste

 


Revista 'Letras & Artes - edição 2008'
 

Alexandre Santos*

Confirmando uma tradição que se manifesta a cada ano, a Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE) coloca à disposição do público mais uma edição da revista ‘Letras e Artes’ – um documento artístico que reúne trabalhos de acadêmicos e convidados, em grande demonstração do vigor cultural do Nordeste e das terras alcançadas pelo esforço de integrar os povos latino-americanos e lusófonos pela cultura. Através de poemas, contos, ensaios, fotografias, partituras e reproduções de obras plásticas, a revista permite um sobrevôo artístico pelas regiões abrangidas pela Academia, exibindo uma amostra da arte praticada atualmente em cada uma delas. Por outro lado, ao incorporar trabalhos de confrades vinculados a todos os núcleos em magnífico exemplo de obra coletiva, intercâmbio acadêmico e convivência intelectual, a Academia de Letras e Artes do Nordeste enfatiza o caráter regional da entidade, rechaçando quaisquer idéias de supremacia, e reafirma o compromisso de valorizar a diversidade e incolumidade das diversas identidades culturais (que constituem uma das principais riquezas da região) como forma de fortalecer a unidade regional.

Nunca é demais lembrar que, plantada em vasto território, a população nordestina enfrenta várias realidades e, por isso, mesmo marcada por sentimentos e sofrimentos que se assemelham no aspecto geral, apresenta nítidas diferenças nos modos de ver e descrever o mundo.
As diversas sub-regiões do nordeste encerram centenas de milhares de cenários que se confrontam, ajustam, completam e, às vezes, interpenetram uns nos outros, formando miscelâneas complexas e, muitas vezes, indecifráveis. Uns cenários são ricos, outros pobres; uns são viçosos, outros áridos; uns são opulentos, outros miseráveis; uns são marcados pela vida, outros, pela morte; uns são marcados pela água, outros pela falta dela; uns são influenciados pelo colonizador português, outros, pelos invasores holandeses, franceses, ingleses e, mais recentemente, norte-americanos, outros, ainda, pelos índios nativos, pelos negros trazidos à força desde África e, finalmente, pelas raças que resultam das demais. Negando visões unifomizantes, brancos, galegos, morenos, mulatos, negros, caboclos, cafuzos e índios vivem litorais, sertões, caatingas e florestas, percorrendo montes, montanhas e planícies, enfrentando secas e tempestades, plantando cana e cacau, colhendo babaçu, uva e caju, pastoreando gado e caçando passarinhos e caranguejos, invejando carcarás e colibris, pescando em mangues, rios e mares, nadando águas azuladas e esverdeadas, caminhando em desertos e matas, pecando e orando apenas duas estações em combinações incontáveis.

São infinitos os nordestes que existem dentro do Nordeste. Cada qual com suas alegrias e lamentos, bonanças e tormentas, riquezas e pobrezas, sonhos e pesadelos, heróis e vilões, fantasmas e anjos, demônios e santos. Uma identidade coletiva para qualquer lugar que se olhe. Em cada cenário, vivendo e convivendo ambiências geográficas, históricas e sociais específicas, as comunidades desenvolvem características próprias e descrevem o mundo e os sentimentos do mundo de forma particular, estabelecendo padrões culturais peculiares. E, dentro dessas comunidades, a uniformidade da coletividade se divide em tantos rostos quantos forem os homens nelas existentes, cada qual com sua genética e psicologia, forças e fraquezas, amores e ódios, crenças e desconfianças, temores e destemores, sentindo e exprimindo o mundo com um sotaque próprio. Assim, dentro do Nordeste existem tantos nordestes quantos forem os nordestinos nele existentes.

Muitas vezes, sub-regiões e pessoas, especialmente as mais próximas, podem comungar características ou sofrer influências recíprocas. Em conseqüência, passam a ostentar padrões culturais semelhantes, tão semelhantes que, em alguns casos, só a sensibilidade das réguas mais precisas percebem as diferenças. Outras vezes, a importação e incorporação de modismos e valores alienígenas alteram os padrões culturais originais, fazendo ferver o caldeirão básico. Nem por isso, os nordestes deixam de existir e, incólumes, os sotaques perduram.
É nesse contexto que a Academia de Letras e Artes do Nordeste atua.

Cultivando e preservando a identidade cultural de cada um dos nordestes existentes na região, especialmente através dos núcleos estaduais, a ALANE, cuja representação institucional se refere a um todo articulado, se preocupa com a difusão do conjunto da arte desenvolvida e praticada no Nordeste. Embora meritório, este processo, irmão siamês da valorização da arte e do artista nordestinos, enfrenta resistência de alguns – resistem aqueles, que, animados pela presunção, estranham a renitência aos desígnios de impor lideranças e hegemonias descabidas; resistem os apáticos e covardes, que, de bom grado, aceitam a monotonia forasteira oriunda dos estrangeiros internos e externos; resistem aqueles que, sem compreender a natureza e a importância da diversidade cultural, contestam estradas multipolares preferindo curvar-se a primazias elitistas. De qualquer forma, desdenhando descontentamentos desnecessários e inoportunos, a ALANE se alinha aos apologistas da altivez libertária e se empenha em promover um intercâmbio agregador, cumprindo a sua parte no processo.

E, com esta compreensão, a revista ‘Letras & Artes’ se apresenta como belo mostruário da cultura nordestina, exibindo significativos exemplos da arte sergipana, alagoana, pernambucana, paraibana, potiguar, cearense e piauiense. Cumpre, então, importante função política, pois, ao difundir a boa cultura regional, desafia e desmoraliza teses que, intencionalmente ou não, tentam desqualificar a produção nordestina e impor a hegemonia de padrões culturais alienígenas à região, desrespeitando a arte e os artistas locais.

Por outro lado, com a proclamada pretensão de contribuir para a instalação e consolidação de um sistema internacional baseado na solidariedade universal, ao lado da defesa da cultura nordestina, ‘Letras & Artes’ coloca mais uma pequena pedra na estrada que pavimenta a integração cultural dos povos latino-americanos e lusófonos. Com efeito, como vem ocorrendo já há alguns anos, a revista incorpora trabalhos produzidos na língua-mãe por escritores da Argentina, Chile, Cuba, México, Cabo Verde e Portugal – países onde está presente através de sócios correspondentes, dando uma efetiva contribuição ao espírito da solidariedade entre os povos através da integração cultural.

Em ‘Letras & Artes’, imagens e textos em português e em espanhol se misturam paras compor uma miscelânea cultural compatível com a complexidade dos propósitos que animam a Academia de Letras e Artes do Nordeste.

Viva a diversidade !

Viva a integração!

Viva o Nordeste do Brasil!
 

(*)Alexandre Santos é Presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste