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Alexandre Santos* Confirmando uma tradição que se manifesta a cada ano, a Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE) coloca à disposição do público mais uma edição da revista ‘Letras e Artes’ – um documento artístico que reúne trabalhos de acadêmicos e convidados, em grande demonstração do vigor cultural do Nordeste e das terras alcançadas pelo esforço de integrar os povos latino-americanos e lusófonos pela cultura. Através de poemas, contos, ensaios, fotografias, partituras e reproduções de obras plásticas, a revista permite um sobrevôo artístico pelas regiões abrangidas pela Academia, exibindo uma amostra da arte praticada atualmente em cada uma delas. Por outro lado, ao incorporar trabalhos de confrades vinculados a todos os núcleos em magnífico exemplo de obra coletiva, intercâmbio acadêmico e convivência intelectual, a Academia de Letras e Artes do Nordeste enfatiza o caráter regional da entidade, rechaçando quaisquer idéias de supremacia, e reafirma o compromisso de valorizar a diversidade e incolumidade das diversas identidades culturais (que constituem uma das principais riquezas da região) como forma de fortalecer a unidade regional.
Nunca é demais lembrar que,
plantada em vasto território, a população nordestina enfrenta várias
realidades e, por isso, mesmo marcada por sentimentos e sofrimentos que se
assemelham no aspecto geral, apresenta nítidas diferenças nos modos de ver e
descrever o mundo. São infinitos os nordestes que existem dentro do Nordeste. Cada qual com suas alegrias e lamentos, bonanças e tormentas, riquezas e pobrezas, sonhos e pesadelos, heróis e vilões, fantasmas e anjos, demônios e santos. Uma identidade coletiva para qualquer lugar que se olhe. Em cada cenário, vivendo e convivendo ambiências geográficas, históricas e sociais específicas, as comunidades desenvolvem características próprias e descrevem o mundo e os sentimentos do mundo de forma particular, estabelecendo padrões culturais peculiares. E, dentro dessas comunidades, a uniformidade da coletividade se divide em tantos rostos quantos forem os homens nelas existentes, cada qual com sua genética e psicologia, forças e fraquezas, amores e ódios, crenças e desconfianças, temores e destemores, sentindo e exprimindo o mundo com um sotaque próprio. Assim, dentro do Nordeste existem tantos nordestes quantos forem os nordestinos nele existentes.
Muitas vezes, sub-regiões e
pessoas, especialmente as mais próximas, podem comungar características ou
sofrer influências recíprocas. Em conseqüência, passam a ostentar padrões
culturais semelhantes, tão semelhantes que, em alguns casos, só a
sensibilidade das réguas mais precisas percebem as diferenças. Outras vezes,
a importação e incorporação de modismos e valores alienígenas alteram os
padrões culturais originais, fazendo ferver o caldeirão básico. Nem por
isso, os nordestes deixam de existir e, incólumes, os sotaques perduram. Cultivando e preservando a identidade cultural de cada um dos nordestes existentes na região, especialmente através dos núcleos estaduais, a ALANE, cuja representação institucional se refere a um todo articulado, se preocupa com a difusão do conjunto da arte desenvolvida e praticada no Nordeste. Embora meritório, este processo, irmão siamês da valorização da arte e do artista nordestinos, enfrenta resistência de alguns – resistem aqueles, que, animados pela presunção, estranham a renitência aos desígnios de impor lideranças e hegemonias descabidas; resistem os apáticos e covardes, que, de bom grado, aceitam a monotonia forasteira oriunda dos estrangeiros internos e externos; resistem aqueles que, sem compreender a natureza e a importância da diversidade cultural, contestam estradas multipolares preferindo curvar-se a primazias elitistas. De qualquer forma, desdenhando descontentamentos desnecessários e inoportunos, a ALANE se alinha aos apologistas da altivez libertária e se empenha em promover um intercâmbio agregador, cumprindo a sua parte no processo. E, com esta compreensão, a revista ‘Letras & Artes’ se apresenta como belo mostruário da cultura nordestina, exibindo significativos exemplos da arte sergipana, alagoana, pernambucana, paraibana, potiguar, cearense e piauiense. Cumpre, então, importante função política, pois, ao difundir a boa cultura regional, desafia e desmoraliza teses que, intencionalmente ou não, tentam desqualificar a produção nordestina e impor a hegemonia de padrões culturais alienígenas à região, desrespeitando a arte e os artistas locais. Por outro lado, com a proclamada pretensão de contribuir para a instalação e consolidação de um sistema internacional baseado na solidariedade universal, ao lado da defesa da cultura nordestina, ‘Letras & Artes’ coloca mais uma pequena pedra na estrada que pavimenta a integração cultural dos povos latino-americanos e lusófonos. Com efeito, como vem ocorrendo já há alguns anos, a revista incorpora trabalhos produzidos na língua-mãe por escritores da Argentina, Chile, Cuba, México, Cabo Verde e Portugal – países onde está presente através de sócios correspondentes, dando uma efetiva contribuição ao espírito da solidariedade entre os povos através da integração cultural. Em ‘Letras & Artes’, imagens e textos em português e em espanhol se misturam paras compor uma miscelânea cultural compatível com a complexidade dos propósitos que animam a Academia de Letras e Artes do Nordeste. Viva a diversidade ! Viva a integração!
Viva o Nordeste do Brasil! (*)Alexandre Santos é Presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste |
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