Reinaldo de Oliveira

 


ONDE ESTÃO MEUS VINTE ANOS?

Reinaldo de Oliveira*


Não resisti. Capitulei de emoção ao ver e ouvir um clip de Charles Aznavour, com suas duas filhas, cantando uma música em que chamava pelos seus vinte anos.

Tenho, mais ou menos, a idade dele, e me faço a mesma pergunta. Onde estão os meus vinte anos em que não contava os dias que corriam pelo tempo? Onde estão os meus vinte anos em que acariciava o vento e brincava de vida? Em que desperdiçava o tempo, crente que o retinha? Onde os meus vinte anos em que dissipei meus projetos? Onde estão aqueles vinte anos em que não possuía rugas no rosto nem tinha medo do tédio? Onde estão os meus vinte anos em que lutava pelo anel de esmeralda que até hoje uso? Onde se acham os meus vinte anos em que nem pensava em escrever coisas como esta? Onde andam os meus vinte anos em que do pior e do melhor afastei o pior em que desprezava os meus sorrisos e congelava meus choros. Venham de volta meus vinte anos com meus amigos Galego e Marcelo varando o Recife, de bicicletas? Onde estão os meus vinte anos sob o manto de papai e mamãe? Os vinte anos em que olhava para cima e via meu irmão, Fernando, de cabeça para baixo, pilotando um Fairchild do Aero Clube? Os vinte anos que me tornavam rijo, atlético, disposto, esperançoso? Que venham de volta os meus vinte anos para que o futuro pareça mais longo. Que é deles em que muitos amigos partiram e não voltaram, mais. Dos meus vinte anos em que, ainda, me sentava no colo de minha avó Inah, que me embalava como se eu ainda não os tivesse. Onde estão os meus vinte anos em que o Teatro Infantil já era passado e o de Amadores ainda não era presente? Onde estão os meus vinte anos em que não havia vazios em meu redor? Onde estão os meus vinte anos em que aspirei ter os filhos que tive e a felicidade na medida da vontade de Deus? Onde estão os meus amores de então, poucos porém sinceros, que alcochoavam minhas noites de sonhos? Devolvam-me os meus vinte anos quando encontrei na Praça do Derby e na Rua Dom Bosco minha L. C. L. meu passado, meu presente e meu amanhã? Onde estão os meus vinte anos em que a palavra viuvez significava coisa alguma para mim? Procurem-nos e os mandem de volta para que eu possa rememorar a noite de 18 de maio de 1950, quando o Teatro de Santa Isabel foi reaberto, após a reforma promovida por meu pai Valdemar de Oliveira, como diretor, na comemoração do seu centenário, com a exibição da Orquestra Sinfônica do Recife, sob a regência do Maestro Eleazar de Carvalho, quando a execução da Alvorada do Escravo, de Carlos Gomes foi de tal modo magnífica, na abertura do programa, que, ao final da noite, meu pai, do camarote do fundo, pediu a palavra ao Maestro, representando o pensamento de todo o público, e solicitou a repetição da Alvorada, no que foi atendido, fecho de ouro da soberba noitada. Por onde andam eles em que me exibi, como cantor e dançarino, na ‘feerie’ ‘Um Século de Glória”, em que se contava a história do Teatro, cantando Mlle Footing, de Nelson Ferreira, como um almofadinha que buscasse o seu par na vida?

Por onde andam meus vinte anos em que noites de estudos valiam mais, até, que ir, depois, tomar café na Praça João Alfredo, com cuscuzes deliciosos, cheio de problemas de Matemática na cabeça? Onde andam meus vinte anos de leite ao pé-da-vaca na Vacaria do Solar dos Rodrigues Alves, na Avenida Malaquias, hoje prédio tombado, sede da Academia Pernambucana de Letras? Onde estão vocês Tião, Tio Dedé, Tio Baby, Tio Lula, Tio Ruy, Tio Vavá e minhas tias Maria Luiza, e Elza? E os do outro lado, de meu pai, Tio Walter, Tio Oliveirinha, Tio Tuta, Tio Binô e Tia Deusinha? Onde estão os meus vinte anos do Náutico? Os vinte anos do Sorvete Dançante do Clube Português em que não tinha coragem de tirar moças para dançar, com medo do corte? Os das corridas do Jockey Club? Os meus vinte anos do Footing da Praça do Derby, aos domingos, no qual invejava as poses dos galãs Rômulo Valença, Gustavo Eirado, Baby Rosa Borges, Fred Góes e Luiz Tavares? Onde estão, por favor, os meus vinte anos de aspirações e esperanças? Como os vejo pequenos, como pontos de luz bruxoleantes, no começo da estrada de minha vida? Que vinte anos lindos plenos de vigor e de vontades, de otimismos e felicidade, sem pensar que um dia ouviria as palavras próstata, infarte ou hipertensão?

Mandem-me de volta os meus vinte anos, perdidos no tempo, para que eu possa rever a minha mocidade.

Mas estou vivo ainda. Querendo morrer de trabalho. Sem querer ficar de pijama numa cadeira de balanço, na beira das calçadas, na hora da luz da rua acender, vendo os vivos passarem... Capaz de amar as saudades e de acolher amores que me afastem a solidão.


                                                               Crônica apresentada na Academia de Letras e Artes do Nordeste em 25 de julho de 2009

 

 

(*) Reinaldo de Oliveira é membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste e da Academia Pernambucana de Letras.