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Um assunto que
tem ensaiado retorno, especialmente nos círculos mais conservadores, é ‘a
necessidade de reformas’ – insinuação que certas categorias econômicas e
políticas fazem às reformas liberais iniciadas no governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso e aprofundadas no governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva – com destaque para as chamadas reformas da
previdência, tributária, sindical e trabalhista. Sintomaticamente, todas
estas reformas reduzem os direitos sociais (que beneficiam, principalmente
os pobres, incluindo a combalida classe média) e ampliam as liberdades
econômicas (que beneficiam, principalmente, os poucos muito ricos que
existem no país). Neste momento – já tratado como prenúncio da sucessão
presidencial de 2010 –, paulatinamente, uma articulação conservadora
retoma aquele discurso que, sob a égide do FMI e Banco Mundial, fez moda
nos anos 80 e 90, voltando a falar em reformas, privatizações e outras
idéias-zumbis.
Enquanto isso,
nas ruas, sufocado pelas reformas já realizadas, o povo sofre. Uns sofrem
porque perderam o emprego nos caminhos da modernidade globalizante, que se
esforça para suprimir postos de trabalho em busca da produtividade
indispensável na competição internacional; outros sofrem porque os baixos
investimentos na infra-estrutura econômica do país (condição exigida pelas
mesmas forças que impuseram e, agora, tentam exigir novas reformas)
impediram ou travaram o surgimento de novos postos de trabalho; os
empregados sofrem porque, incorporados à arena da macroeconomia, têm
salários comprimidos como forma de conter o consumo e, com isso, atender
metas de inflação; outros, ainda, sofrem porque, tendo atingido a chamada
‘melhor idade’, não conseguem desfrutar o repouso merecido, pois, diante
da insuficiência das aposentadorias, precisam continuar no mercado de
trabalho, disputando as vagas existentes com os mais jovens e, com isso,
contribuindo involuntária e compulsoriamente para debilitar o nível dos
empregos e dos salários; outros sofrem porque recorrem ao crime famélico
e, sem condições de resistir às tentações do submundo, ingressam na
estrada sem volta que leva ao inferno; até mesmo os abastados, que têm
renda e conforto, sofrem porque não podem aproveitar tranqüilamente as
delícias da vida, pois, querendo ou não, estão imersos na crise e sujeitos
às suas conseqüências e só se sentem seguros quando aprisionados em suas
próprias casas, verdadeiras fortalezas-prisões cercadas por muralhas e
grades. O pano-de-fundo de todos estes problemas é o modelo econômico
excludente e, dizem muitos, espoliador, que, tendo sugado tudo o que
podia, depende de novas reformas liberais para sobreviver.
Tentando
reabilitar o tema, aplainando um terreno onde plantar novas reformas, as
forças conservadoras têm usado e abusado da manipulação da informação.
Omitem as mazelas sociais ou as atribuem a fatores ‘inerentes aos novos
tempos’ (como se nada tivessem a ver com eles), escondem, inclusive, que
esta receita levou a Argentina à débâcle. O dinheiro usado para pagamento
de aposentadorias e benefícios não é referido como uma forma de dinamizar
a economia através do consumo dos beneficiados, mas como uma mera ‘despesa
do governo’. O noticiário econômico é apresentado como se nada tivesse a
ver com o noticiário policial – não reconhecem que as injustiças
econômicas funcionam como uma estufa na qual germinam e robustecem as
chagas sociais, incluindo o crime e a violência, e atribuem ao
narcotráfico e, não ao modelo econômico, a paternidade de todos os crimes
e da violência que macula as nossas cidades – ou [como se nada tivesse a
ver] com o noticiário geral do país – nunca dizem que, na raiz dos
problemas mais sérios que afetam os sistemas públicos de saúde e educação,
por exemplo, está a falta de dinheiro, um dinheiro que, ainda no Tesouro
Nacional, sob as chancelas de ‘superávit primário’ ou ‘verbas
contingenciadas’, é desviado de serviços públicos necessários para o bolso
dos banqueiros. Nunca é demais lembrar que, só nos últimos 12 meses, o
governo federal arrecadou e, sob a chancela de superávit primário, deixou
de investir R$ 106,9 bilhões, equivalentes a 4,37% do PIB. Espertas, ao
tempo que sonegam o outro lado da moeda, as forças conservadoras insinuam
uma relação de causa e efeito e se referem a fenômenos como o controle da
inflação, o alto nível das reservas cambiais e, mais recentemente, o
aumento do rendimento médio dos trabalhadores (pouco diz sobre a renda dos
desempregados ou daqueles que bicam migalhas no subemprego) como ‘bons
frutos das reformas já realizadas’.
Nos dias
correntes, sem nunca perder o foco na previdência, que continua sendo a
jóia da coroa, os conservadores investem na questão tributária, que, sendo
um tema de forte apelo emocional, abre caminho para cooptar as massas
populares ‘em favor das reformas’ – um jargão que pode ser estendido às
demais. Confiantes no esquema que esconde da sociedade – tratada como
plebe rude – que a maior parte dos impostos é destinada ao pagamento de
juros e, não ao custeio ou investimentos, os conservadores mentem e
afirmam que a carga tributária, que, no primeiro semestre de 2007 atingiu
36,39% do PIB, é elevada e, mais ainda, que é elevada porque o governo
precisa manter uma ‘máquina pesada e ineficiente’. Ao escamotear a
informação sobre o pagamento dos juros, deixando a conclusão por conta do
confronto da carga tributária com a qualidade dos serviços públicos, fica
fácil demonstrar como os impostos são ‘altos’. Afinal de contas, para
ficar adimplente com a banca nacional e internacional, o governo usa a
maior parte do dinheiro disponível para pagar juros e fica inadimplente
com os brasileiros, pois oferece-lhes serviços públicos de péssima
qualidade, levando a que todos sonhem com os dispendiosos serviços
privados de saúde, educação, segurança, previdência, etc. Nesta
perspectiva, há uma percepção de que a carga tributária no Brasil é alta.
Naturalmente, mantido atual esquema de pagamento de juros, não seria a
redução dos impostos que eliminaria esta percepção. Pelo contrário. Uma
redução de impostos diminuiria, ainda mais, a disponibilidade financeira
para custear os serviços públicos e o quadro se agravaria. Assim, para não
afetar a qualidade já sofrível dos serviços públicos, uma redução da carga
tributária implicaria em menor volume de recursos para pagamento aos
banqueiros. Isto, evidente, é tudo o que conservadores não desejam. Na
realidade, quando falam em baixar impostos, os conservadores pensam numa
reforma do Estado que reduza, ainda mais, a capacidade operacional do
governo, diminuindo o número de funcionários públicos e minimizando as
responsabilidades constitucionais do Estado. No fundo, o velho sonho
liberal de ungir o mercado à condição de elemento central das relações
políticas, econômicas e sociais.
Mas, não é
este tipo de reforma que o povo quer. Decepcionado com as reformas
introduzidas pelos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula
da Silva, que foram incapazes de promover qualquer melhoria concreta no
serviço público brasileiro, o povo só se interessa por reformas capazes de
melhorar a sua qualidade de vida. É evidente que há a necessidade de
reformas. Afinal de contas, se falta carne na mesa de muitos brasileiros
num país em que a população bovina é maior que a população humana, se
falta terra para agricultores num pais que tem a extensa área territorial
e a baixa densidade demográfica do Brasil; se falta dinheiro para setores
como saúde, educação e assistência social e, ao mesmo tempo, sobra para o
pagamento de juros aos banqueiros é porque muita coisa precisa ser
reformada. Que tal uma reforma que garanta uma renda mínima para todos os
brasileiros, possibilitando atender os padrões mínimos de consumo e, ao
mesmo tempo, dinamizar o mercado interno do país? Que tal uma reforma
política que fortaleça o eleitor como elemento de decisão, pela liberdade
de organização popular, possibilitando a revogação dos mandatos dos
políticos que traem o eleitor ou que se revelem incompetentes? Que tal uma
reforma urbana que garanta habitação para todos? Que tal uma reforma que
proíba o governo de eleger prioridades que o tornem inadimplente para com
o povo? Que tal uma reforma que torne impositivo o Orçamento da União,
impedindo que o governo forme economias desnecessárias? Que tal uma
reforma agrária que redistribua terras, criando condições para a fixação
da população campesina e para a reversão dos movimentos migratórios? Que
tal uma reforma bancária que democratize e nacionalize o crédito para
fortalecer a pequena empresa e gerar condições para renovação e ampliação
dos quadros empresariais nacionais? Que tal uma reforma que garanta a
soberania nacional pela maior presença do Estados nos setores considerados
estratégicos? Que tal uma reforma da administração pública que valorize os
funcionários públicos, dignificando o serviço que eles prestam? Que tal
uma reforma do ensino que torne gratuito e universal o acesso à escola em
todos os níveis? Que tal uma reforma do modelo de crescimento que eleja o
fortalecimento do mercado interno como ponto de apoio pela recuperação dos
salários? Que tal uma reforma da legislação que possibilite e estimule o
funcionamento da economia de comunhão, empresas comunitárias e
cooperativas solidaristas?
Sem dúvidas, o
Brasil precisa de reformas. Muitas reformas.
Texto publicado no Blog do Magno.
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