Olímpio Bonald Neto

 


 

A UBE-PE E DOM HÉLDER

Olímpio Bonald Neto*

As comemorações do centenário do Arcebispo Dom Hélder Câmara destacaram as múltiplas atuações do Pastor e do Homem Público. Daí ser elogiável perpetuar sua ativa participação como intelectual erudito, orador, poeta e inspirado autor das epístolas ou “Circulares “, a serem editadas pela CEPE- Companhia Editora de Pernambuco e o GOVERNO DO ESTADO , conforme noticia a Revista CONTINENTE de Fev. 2009.

Fato pouco divulgado, porem não menos importante, é lembrar que ele também foi membro atuante da UBE-PE -União Brasileira de Escritores de Pernambuco - e apoiou as lutas democráticas pela liberdade de expressão de muitos intelectuais e artistas mais independentes que não tinham voz nem vez , após o golpe de 64.

Naqueles tenebrosos dias, dentre os poucos que enfrentaram a repressão, o DOM da PAZ, na sua aparente fragilidade física, sempre agiu com a coragem e independência de verdadeiro Profeta, praticando o Evangelho e, revolucionariamente, denunciando torturas, desaparecimento e assassinato de sacerdotes, operários e intelectuais, como bem recordou o Pároco de Casa Forte, Pe. EDVALDO GOMES, ao ser entrevistado pela Revista ALGO MAIS, em Fev. de 2009.

Vale observar a predestinação vocacional do inspirado Arcebispo para atuar em programas sociais, na Igreja Progressista e no Grito dos Excluídos , voltados para as reformas de base e a valorização do humanismo cristão.

Isto, por certo, foi o que levou nos anos 30, o jovem PADRE HELDER CÂMARA - tal como acontecera com outros idealistas brasileiros - a encantar-se com as propostas políticas dos comunistas e dos integralistas quanto as Reformas sociais e econômicas, que prometiam mudar o Brasil, levando-o a apoiar o Integralismo. Tal como fizeram outros intelectuais cristãos de prestígio nacional, a exemplo de Tristão de Ataíde, Miguel Reale e Álvaro Lins , e aqui no Recife os Professores Abgar Soriano, Gilberto Osório, Arnóbio Graça e alguns jovens estudantes, como Potyguar Matos, Paulo Cavalcanti e Andrade Lima Filho.(1)

Depois de 1964, já como Arcebispo de Olinda e Recife, o nosso querido DOM, pondo em pratica o ideário da renovação da Igreja em favor dos Excluídos, veio a apoiar o MOVIMENTO DE ARTES DE OLINDA que surgira na Marim dos Caetés . Olinda , com o golpe militar dispersando os movimento sociais e artísticos da capital pernambucana, tornara-se discreto reduto da resistência cultural de poetas e artistas plásticos que passaram a expressar sua repulsa à ditadura através de obras de arte de cunho social .

E, entre outras iniciativas culturais, criaram a ESCOLINHA DE ARTE DO ALTO DA SÉ, dinamizando a criação artística entre os jovens com a participação de artistas, poetas , jovens professoras, senhoras da sociedade local e do Recife e de outro benemérito sacerdote, Dom Marcelo Carvalheira, então Pároco da Sé.

O mais singular desse episodio foi aquele movimento cultural de caráter espontâneo e marginal – suspeitíssimos para a Policia política da época - ter realizado com êxito, e pleno apoio do Arcebispado, entre os dias 16 e 23 de Dezembro de 1967, a concorrida I SEMANA DE ARTE DE OLINDA, nos vetustos salões do PALÁCIO DOS BISPOS no Alto da Sé , onde hoje funciona o MASP - MUSEU DE ARTE SACRA DE PERNAMBUCO.

O programa do evento, ilustrado pelo PINTOR JOSAEL DE OLIVEIRA, foi apresentado pelo ACADÊMICO NELSON SALDANHA que dizia ver no evento mais um fruto da semente de rebeldia e arte plantada pelo PINTOR ADÃO PINHEIRO, logo depois de 64, quando criou o GRUPO DE ARTE DO MERCADO DA RIBEIRA, com artistas oriundos da Escola de Belas Artes ( 2)

Anos mais tarde a UBE- PE teve a honra de receber o Arcebispo da Paz , na qualidade de poeta e orador, que aceitara integrar-se á classe dos escritores dos pernambucanos , tendo sido empossado em 06 -12- 1989 ,

ADIUZA BELO registra a memorável cerimônia no livro “ UBE-Pernambuco, mais de meio século de historia”, numa solenidade aberta pelo então Presidente FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO e concluída com um belo recital poético a cargo dos sócios RUBEM ROCHA FILHO, DIONE BARRETO E VERNAIDE WANDERLEY. (3 )

Segundo o jornalista NAGIB JORGE NETO foi ele saudado pelo escritor e político PAULO CAVALCANTI, fundador e Presidente de Honra da entidade , com as seguintes palavras:

"DOM HÉLDER, a UBE-PE , recebe Vossa Reverendíssima com alegria de quem acolhe o seu mais ilustre e querido associado. E o faz, Dom Hélder, pelas mãos de um homem confessadamente materialista, mas também confessadamente submisso ao dever de respeitar as crenças alheias

E continua , emocionado :

"É uma honra tê-lo entre nos. Vossa Reverendíssima , é cidadão do mundo e símbolo de amor e tolerância entre os homens, mas, sem duvida nenhuma também é paladino da paz e dos direitos humanos

Para concluir com a sua peculiar grandeza espiritual :

"Temos ambos e, quando digo ambos - refiro-me aos cristãos e não cristãos – um designo comum, que nos anima e estimula : somos soldados das mesmas jornadas, caminheiros das mesmas travessias.

Não deixemos, em nome do mais puro Humanismo, que tempestades e maremotos façam soçobrar esse barco de tão belos sonhos!" (4)


 

Obras consultadas

(1) BONALD NETO,Olimpio, “IDEOLOGIA NOS ANOS TRINTA, Modernismo, Regionalismo, Integralismo ”, Ed. Bagaço , Recife, 1996.

(2) CLÁUDIO, José “TRATOS DA ARTE DE PERNAMBUCO, Secretaria de Esporte, Cultura e Turismo , Recife, 1984.

(3) BELO, Adiuza , “UBE-PERNAMBUCO, MAIS DE MEIO SÉCULO DE HISTORIA”, Novoestilo Edições do Autor, Recife, 2008 .

(4) JORGE NETO, Nagib , PERFIL PARLAMENTAR DO SÉC. XX ,ELOGIO DA RESISTÊNCIA, Evocação de PAULO CAVALCANTI”, Assembléia Legislativa de Pe., Recife 2001.

(5) CAVALCANTI, Paulo, “O CASO EM CONTO COMO O CASO FOI: A luta Clandestina, Memórias Políticas”, 2ª. Ed. Recife, CEPE, 2008.

 

 

(*) O acadêmico Olímpio Bonald Neto é Presidente Emérito da UBE