Sul-americanos apontam novos rumos para a humanidade

Nas eleições presidenciais realizadas em 21 de abril de 2008, os paraguaios reprovaram o conservadorismo entreguista do Partido Colorado, impondo significativa derrota à candidata governista Blanca Ovelar (a quem deram apenas 30,72% dos votos), e, ainda, rechaçaram a proposta liberal da chamada União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace) representada pelo general Lino Oviedo (a quem deram apenas 21,89% dos votos). Em meio a uma festa que retumbou o Panteão dos Heróis, no centro de Assumpção, com caravanas, buzinaços, bandeiras, fogos e fanfarras, varando a noite, os paraguaios comemoraram a vitória do bispo católico Fernando Lugo, candidato de 20 grupos progressistas abrigados na Aliança Patriótica para a Mudança (APC), em gesto que, além de indicar a insatisfação nacional acumulada ao longo de 61 anos de governo conservador, reforça a nova esquerda latino-americana, confirmando a tendência regional que segue na contra-mão daquela que veio a partir dos anos 80 na garupa da onda neoliberal globalizante.
A eleição de Fernando Lugo, um adepto da Teologia da Libertação, não agradou ao status quo, especialmente àquele representado na Casa Branca, que, se pudesse, faria como fez o Vaticano com o bispo Lugo, e, a ‘Divinis’, suspenderia/cassaria o presidente Fernando, barrando no nascedouro a arrancada que se espera do Paraguai – um país que, independentemente de sua posição econômica extremamente frágil, exerce expressiva importância simbólica no processo libertário que embala a região, inclusive na criação da União Sul-Americana (Unasul) e do Banco do Sul e noutros projetos regionais que contam com o apoio dos presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Tabaré Vázquez, do Uruguai, Michelle Bachelet, do Chile, Cristina Kirchner, da Argentina, Luis Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Rafael Correa, do Equador.

Para fazer bom governo, realizando com sucesso promessas de campanha e, assim, desautorizar os saudosistas, tão logo assuma a presidência do país em 15 de agosto, Fernando Lugo vai precisar quebrar alguns ovos, atingindo poderosos interesses. Terá, por exemplo, de anular a doação farta e ilegal de terras públicas a latifundiários nas décadas e décadas de apadrinhamento das elites, que privatizaram o governo, especialmente nas fases áureas do autoritarismo militar e da infernal doçura neoliberal. E fazer como Hugo Chávez, que, quando necessário, avoca o controle de setores econômicos estratégicos, ou como Evo Morales, que, recentemente declarou na ONU que “é preciso exterminar o sistema capitalista para salvar o planeta de verdade”, ou como Rafael Correa, que não vai renovar o acordo que autoriza os EUA a manter bases militares no território nacional.
Por isso e muito mais, é de esperar que, logo cedo (a exemplo do que ocorre com os colegas libertários), Fernando Lugo enfrente ondas de desestabilização articuladas desde Washington. Vai precisar, portanto, de muito apoio dos países que apostam na União Sul-Americana (Unasul).

Neste processo, tendo em vista a intensidade que pode assumir as relações diplomáticas, culturais e comerciais e, também, pela proximidade física, o apoio do Brasil pode ser decisivo. Na realidade, diante dos propósitos anunciados pelo bispo Fernando Lugo, o Brasil ganhou a oportunidade para redimir parte das injustiças que cometeu contra o Paraguai, especialmente entre 1864 e 1870, por ocasião da chamada ‘Guerra do Paraguai’, quando juntamente com Argentina e Uruguai, cumpriu um execrável serviço para a Grã-bretanha, que não suportava a idéia do surgimento de uma potência sul-americana independente, e quase destruiu o país. Agora, o governo brasileiro tem a chance de reparar o pecado histórico, reduzindo a carga de exploração contra aquele país, inclusive com a revisão do acordo de Itaipu firmado em 1973, que, refletindo a correlação desigual de forças entre os países, estabelece condições escorchantes ao comércio da energia gerada na hidrelétrica do Rio Paraná.

De qualquer forma, a tendência histórica na qual se insere a eleição de Fernando Lugo no Paraguai indica a possibilidade de brasileiros, chilenos e colombianos aproveitarem as próximas eleições presidenciais para colocar seus respectivos países em caminhos libertários, dando exemplo aos guianos de todas as nacionalidades e, se distanciando progressivamente do capitalismo liberal, realizar melhores dias para os sul-americanos e apontar melhores rumos para a humanidade.

Texto publicado no Blog do Magno.