Idi Amim em Recife?

Nos últimos meses, a administração municipal do Recife está enfrentando um teste de coerência e, aparentemente, está perdendo. Com efeito, diante da mobilização iniciada na zona sul e logo encampada por toda a cidade pela construção de um parque verde na área de 33.000 m2, localizada em Boa Viagem e doada ao povo do Recife graças ao empenho dos moradores daquele bairro, o governo municipal parece estar contradizendo o discurso insistentemente alardeado de que faz uma gestão ‘radicalmente democrática’. Pouco se lixando para o clamor já manifestado em lista subscrita por mais de 40.000 recifenses, o governo João Paulo teima na construção de um projeto faraônico que, ao custo estimado de mais de 30 milhões de reais, prestigia o concreto seco e antiecológico com a ocupação do terreno com teatro, lojas, restaurantes e esplanada para a realização de mega eventos, sobrecarregando o sistema e negando a área verde que a população deseja. Para justificar a decisão autoritária da prefeitura, alguns alegam que o prefeito João Paulo exerce mandato conquistado nas urnas e que, nesta condição, desfruta da legitimidade necessária para contrariar a voz das ruas, acrescentando que a administração não vai tolerar que pressões afetem a governabilidade municipal. Isto é muito estranho, pois, todos sabem que, no âmbito de esquemas ‘radicalmente democráticos’ que dizem valorizar o estilo expresso na dinâmica dos orçamentos participativos, o conceito de Governabilidade tem nova dimensão. Ao contrário do que ocorre em governos tradicionais, que tratam demandas sociais como riscos à governabilidade, governos progressistas procuram embeber a mera representação política com participação popular e, nesta perspectiva, não consideram eventuais recuos como a perda da condição política de governar. Aliás, ao alegar a supremacia do mandato para contradizer a tese do ‘governo radicalmente democrático’ e desconsiderar a opinião do povo, a administração cria um sério problema de governabilidade, pois reduz a credibilidade do prefeito.

Ganha destaque o fato de que, ao contrário daquilo que ocorre quando a prefeitura alega dificuldades financeiras para deixar de atender legítimos reclamos da comunidade ou tenta manter a governança esquecendo ou escondendo carências, no caso do Parque de Boa Viagem, o governo municipal parece nadar num mar de dinheiro. Neste caso, surpreendentemente, o governo municipal está recusando o projeto desejado pela população, que é mais simples, barato e poderia, inclusive, ser desenvolvido pelos arquitetos e urbanistas do excelente quadro técnico da própria prefeitura. Contrariando o discurso da austeridade financeira, a prefeitura burlou os procedimentos usuais da boa administração e, desdenhando arquitetos e engenheiros pernambucanos, optou por contratar um mega projeto ao escritório que ostenta a griffe Oscar Niemeyer. Falta dinheiro para a construção das refinarias culturais, mas sobra para a destruição de uma das últimas áreas verdes da cidade. Não é demais apontar que, se a Prefeitura atendesse a população recifense e, ao invés do projeto faraônico, executasse o parque simples e verde que a comunidade deseja, teria a governança fortalecida com o aporte financeiro superior a 30 milhões para executar aquilo que ela deixa de fazer sob a alegação de falta de dinheiro.

Para atender aos reclamos do povo não haveria necessidade de tentar burlar a ciência, promovendo pesquisa de opinião no calor de uma milionária campanha publicitária (o que, por si só, invalida os resultados) ou desmoralizar a Câmara Municipal do Recife, expondo os vereadores Henrique Leite, Jurandir Liberal, Luiz Helvécio, Mozart Sales, Josenildo Siqueira, Osmar Ricardo, Fernando Nascimento, Luiz Eustáquio, Antonio Luiz Neto, Antonio Oliveira, Caio Pires, Carlos Gueiros, Eduardo Marques, Cordeiro de Deus, Fred Oliveira, Francismar Pontes, José Antonio, Nildo Resende, Roberto Teixeira, Severino Gabriel, Valdir Facioni, Vicente Gomes e Gilberto Luna ao vexame pelo qual passaram ao votar contra a implantação de uma necessária Zona Especial de Proteção Ambiental no nosso condoído Recife.

Um parque com muita área verde é tudo que a população quer. Não deve ser difícil atender um pedido deste, especialmente por uma administração que se diz radicalmente democrática.

Texto publicado no Blog do Magno.