O moinho, de Alexandre Santos

Leony Muniz*

Aqui diante de tantas pessoas ilustres para a literatura pernambucana me confesso um pouco assustada.

Enfim, estou atendendo ao honroso convite de Alexandre para falar sobre o seu romance ‘O Moinho’, o que faço com muito prazer.
Todos sabem que não possuo o devido instrumental para julgar uma obra literária. De qualquer maneira vou dar uma opinião muito particular, de como O Moinho me sensibilizou, e acho que é exatamente isso que um escritor deseja: sensibilizar o leitor, e fazê-lo entrar em sintonia com o seu trabalho.

Em diversas ocasiões ouvi de algumas pessoas uma observação que me deixou curiosa: a de que a leitura de O Moinho era árida e pouco atraente. Decidi então enfrentar o desafio e me dispus a lê-lo. logo de início fiquei presa à narrativa, acompanhando atenta e prazerosamente o desenrolar da história.

O Moinho, além de ser uma obra bem elaborada, se expressa em linguagem accessível embora trate de um tema que diz respeito a problemas econômicos, de direitos humanos, de política internacional, das formas fraudulentas utilizadas pelos grandes conglomerados econômicos de nível internacional, cuja estrutura de poder é maior do que podem perceber as pessoas em geral, do que pode perceber o senso comum.

Embora sendo um romance ficcional não está longe da realidade que paira sobre as nossas sociedades. É uma justa denúncia do que ocorre no mundo corrupto e corruptor do poder econômico.

Os protagonistas dessa grande teia, um inglês (Sir Thomas Baldwin); um ex-presidente norte-americano (J.J. Shepard); um banqueiro (Edward Salomom 111) ; um mega-empresário do setor da informática (John McArthur); e um magnata do aço (Adolf Kramer), tramam um plano de mudar o curso da história, cuja idéia central era a promessa de um novo tempo proporcionado pelo capital. Uma revolução liberal, que purificaria a raça humana pela destruição dos menos dotados financeiramente, sem condição para competir com as grandes potências.
O autor discorre de forma detalhada e compreensível, mesmo para aqueles que não estão acostumados aos jargões do economês, da área financeira, da estrutura bancária, e da política internacional, de como funciona o sistema de corrupção e como é difícil a sua identificação.
Outro aspecto abordado e importante é o uso de pessoas influentes, "inocentes úteis", que se deixam convencer por falsos argumentos de patriotismo e defesa da economia e da sociedade do seu país, sem conhecer os verdadeiros objetivos da organização.

Alguns poderão dizer que O Moinho é apenas uma obra de ficção, mas para quem conhece um pouco desses mecanismos, quem está sempre se informando a respeito das realidades dos diversos paises, sobretudo o Brasil, verá que se trata de um grito de alerta para acontecimentos que ocorrem debaixo dos nossos narizes, aos quais não nos damos conta.

Poderíamos até citar algumas organizações que implantaram ditaduras na América Latina, desestruturando os sistemas financeiros e sociais e que obtiveram o aplauso do povo, por alienação deste.

Em geral somente se fala do jogo corrupto dos governos, dos políticos, mas os esquemas de corrupção do setor privado são incomensuravelmente maiores e mais amplos, pois não se limitam aos aspectos financeiros, mas aos valores éticos e morais.
Muito se poderia falar a respeito da trama, bem urdida, elaborada pelo autor, que demonstra sua excepcional capacidade intelectual e perfeito conhecimento dos temas abordados.

Por essa razão considero a leitura de O Moinho de suma importância, por se tratar de um chamamento para uma realidade que poderá mudar o destino do nosso país. É um alerta, uma reflexão sobre o poder que o povo tem nas mãos, ou seja, a escolha da direção do nosso município, do nosso estado, do nosso país.

O Moinho foi merecidamente agraciado pela Academia Pernambucana de Letras com o Prêmio Vânia Souto Carvalho em 2007, e lançado na XVI Feira Internacional do Livro em Havana,pelo Editorial Arte y Literatura - Cuba.

Vamos botar O Moinho para moer no sentido inverso aos caminhos propostos pelo professor Bentley e seu seleto grupo de empresários e intelectuais, que além de corruptos são estereótipos de criminosos internacionais.

                                                                                                                                  Recife, 09 de novembro de 2009