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A vida
comunitária se caracteriza por regras que estabelecem o padrão de
comportamento que deve ser seguido pelos seus membros, definindo os
direitos e deveres que cabem a cada um. Nessa perspectiva, as pessoas
aceitam que a coletividade lhes cobre o cumprimento dos deveres devidos e,
em contrapartida, esperam sua colaboração nos momentos em que lutam para
preservar ou recobrar direitos que lhe pertencem – uma relação que recebe
o nome genérico de "Justiça", essencial ao bom relacionamento social.
Quando feridas nos direitos que pensam ter, as pessoas de bem são levadas
a pensar que basta recorrer à "Justiça", para ter seus direitos
restabelecidos. E, confiantes na eficácia da "Justiça", as pessoas de bem
vivem tranqüilas, na certeza de que seus "direitos" sempre serão
preservados.
No imaginário popular, a tal "Justiça" – entidade suprema, cujo poder e
sapiência a iguala a um bom pai – é o Poder Judiciário. Nada mais
enganoso, pois, ao contrário do que as pessoas são levadas a pensar, o
Poder Judiciário apenas aplica a lei, seja ela justa ou não. Essa dura
constatação destrói o sonho de que existe uma super-entidade empenhada em
restaurar o direito das pessoas, promovendo a justiça. Essa decepção é
maior nos momentos em que a pessoa recorre ao poder público para recobrar
direitos que imagina ter e não recebe a justiça que imagina merecer. A
pessoa, então, sente-se traída em sua confiança e, quase sempre, debita
sua insatisfação no Poder Judiciário, podendo, então, cometer uma
"injustiça". Ao Poder Judiciário cabe apenas a defesa da ordem jurídica
através da aplicação das leis vigentes. Assim, o Poder Judiciário pode, ou
não, promover justiça. O efeito da sua ação vai depender da qualidade da
legislação e da forma como a aplica. De qualquer forma, pode-se dizer que
sem leis justas, o Poder Judiciário não tem como distribuir justiça.
Na realidade, a instalação da injustiça é fruto da atuação, combinada ou
não, de fatores complexos, envolvendo culpas e culpados nem sempre
identificáveis, que dificultam ou impedem a restauração de direitos,
decepcionando as pessoas. Vale lembrar que, sendo mais um dos muitos
assuntos que se inserem no vasto campo da desinformação política, aqueles
que se beneficiam do alheamento e alienação das pessoas também devem ser
responsabilizados pelo estado de injustiça que as impede de recobrar
direitos conspurcados.
Quando não conseguem recobrar um direito maculado, as pessoas despertam e
percebem que a conquista da justiça é um sonho nem sempre alcançável. "Por
que a ‘Justiça’ não garante meu direito?", pergunta-se a pessoa que se
sente injustiçada. A resposta a essa pergunta não é simples e envolve,
inclusive, considerações sobre a valoração. Afinal de contas, o que é
"certo" para uns pode não ser "certo" para outros e, em diversos sentidos,
os direitos que as pessoas se atribuem podem ser conflitantes entre si.
Como numa coletividade surgem tantos "direitos" quanto forem os interesses
em conflito, para evitar que se instaure a lei dos mais fortes, há a
necessidade da coletividade intervir de modo que apenas um "direito" seja
consagrado em lei, estabelecendo um padrão de convivência para todos.
Nesse processo legislativo, muitas situações consideradas como "direito"
por alguns não são consagradas em lei e, portanto, não alcançam a condição
de "direito legal". A perda de um "direito" não consagrados em lei, por
mais legítimo que seja, evidentemente, não pode ser reclamada em juízo.
Para os que se incluem nessa situação, o Poder Judiciário não promove
justiça, só decepção. Nesse momento, destaca-se a importância do processo
legislativo que consagra os "direitos legais", aqueles que podem ser
reclamados perante o poder público. Para melhor compreensão desse
fenômeno, vale à pena analisar alguns aspectos do processo legislativo.
A elaboração das leis não cabe ao Poder Judiciário sendo uma tarefa do
Poder Legislativo, cujas casas são preenchidas por parlamentares que, como
sabemos, tendem a representar o interesse específico de seus eleitores ou,
pior, dos grupos que financiam as campanhas eleitorais. Não há como negar
o caráter corporativo do Poder Legislativo ou o fato de que a maioria dos
parlamentares se empenha exclusivamente na defesa dos interesses das
corporações representadas. O Poder Legislativo funciona como uma arena na
qual os representantes das corporações se digladiam para aprovar leis que
consagram o interesse de cada uma delas, elevando-os à condição de
"direito legal". O embate legislativo entre as diversas forças, que
envolve desde pressões leoninas até concessões franciscanas, tende a
aprovar leis que prestigiam a vontade e o interesse das mais poderosas. As
leis, então, fruto da correlação das forças políticas engajadas no
processo legislativo, ao invés de refletir um padrão conveniente a todos
(abrigando todas as expectativas de justiça e possibilitando que o
"direito" de todas as pessoas possa ser reclamado perante o poder
judiciário), refletem apenas o interesse das forças que controlam o
processo legislativo. Essa condição indica que a lei legaliza o interesse
de alguns ou, na outra face dessa mesma constatação, que não legaliza o
interesse de todos. Ou seja, retirados os casos que se referem aos
direitos básicos, a lei é facciosa, prestigiando o interesse dos mais
poderosos. Isso não significa que a lei não possa atender o interesse das
pessoas. Na realidade, sempre que o interesse da pessoa coincida (ou, pelo
menos, não contrarie) com o interesse daqueles controlam o processo
legislativo – considerados "politicamente corretos" – a lei é capaz de
atender seus anseios de justiça. Nesse caso, como seus padrões de direito
e anseios de justiça se ajustam aos interesses dos grupos que controlam o
processo decisório do Poder Legislativo, a pessoa fica protegida na
legislação. Essa situação normalmente é circunstancial e nunca se estende
a todos os campos e momentos da convivência.
Vale destacar que, mesmo para as pessoas "politicamente corretas", a
restauração do direito não é fácil. De fato, o restabelecimento de um
"direito legal" não é automático e as pessoas que recorrem ao Poder
Judiciário para reclamá-los enfrentam uma longa e demorada jornada, cujo
desfecho é sempre incerto. Para começar, o acesso ao Poder Judiciário não
é fácil. Até formalizar sua reclamação, a pessoa tem de vencer uma batalha
contra a desinformação sobre seus "direitos legais", distância aos fóruns,
esperas e demoras que consomem um tempo nem sempre disponível,
incompreensão do processo judiciário, desorientação jurídica e
profissional e outros itens que atrapalham e, mesmo, impedem o acesso ao
Poder Judiciário. Assim, mesmo nos casos em que se enquadra na condição de
"politicamente correta", tendo seus direitos consagrados em lei, a pessoa
pode não ter a chance de formalizar sua reclamação, perdendo, então, a
possibilidade de recobrá-los em juízo.
A luta para restaurar um direito é penosa. A correta apresentação de um
pleito "politicamente correto" ao Poder Judiciário é apenas o início de um
longo e incerto caminho, cujo sucesso depende da correta interpretação e
aplicação da lei. Essa fase sofre grande influência dos juízes – homens
que têm a missão de aplicar a lei, definindo a quem cabe o direito. Esse é
um ponto crucial de todo o processo pois, como qualquer homem, além de
limitações intelectuais e inexperiência pessoal, um juiz pode apresentar
deficiências morais e profissionais, descontentamentos, carências,
preconceitos, simpatias e outras características capazes de comprometer
sua capacidade de julgamento. Não é à toa que muitos afirmam que "da pena
do juiz pode sair qualquer coisa". A inconsistência do processo jurídico
tornou-se mais evidente com a CPI do Judiciário (fevereiro a novembro de
1999) que apurou e denunciou vários casos de omissão, prevaricação e
corrupção. No embalo dessa inconsistência, muitas vezes um direito legal
não é recobrado e a injustiça impera, decepcionando os que acreditam na
"justiça".
As pessoas que não conseguem recobrar seus direitos – sejam eles legais ou
não – sofrem uma decepção que, a depender da sua intensidade, pode
comprometer sua confiança no sistema que regula a vida comunitária, dando
origem a sentimentos de revolta, cujos casos mais graves são a
desobediência civil, a justiça das ruas, enfim, a quebra da autoridade,
ante-sala da anarquia. Leis justa e bem aplicadas são um elemento
essencial para a preservação da autoridade pública e dos laços
comunitários.
Texto distribuído pela Internet.
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