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Alexandre Santos*
Acreditando na jurássica
Lei de Say, segundo a qual “a oferta cria sua própria demanda”, a indústria da
construção civil torceu os olhos para os pobres e, marejada por expectativas de
cifrões e tinidos, apostou nas classes abastadas. A lógica cartesiana dos
empresários da engenharia seguiu os ventos do mercado e, sem maiores remorsos,
concluiu que, se os pobres não têm dinheiro, não há porque construir para eles.
E, nesse embalo, longe de pensar em conjuntos habitacionais populares,
empenhou-se na construção de imóveis para as classes A e B. No início deu certo.
Tomados como reserva de valor, os apartamentos foram comercializados aos montes.
Mas, com o passar do tempo, já com o primeiro, segundo e terceiro apartamentos,
as pessoas começaram a diversificar os investimentos e passaram a comprar outros
artigos da cesta de negócios. A Lei de Say, mais uma vez, soçobrou. Um enorme
estoque de imóveis, novos e velhos, empanturrou o mercado imobiliário,
deprimindo preços e gerando dificuldades para a indústria construtora. A opção
pela afluência gerou uma realidade surrealista: os pobres desabrigados
continuaram sem ter onde morar e os ricos, já abastecidos com os imóveis que
queriam, deixaram de fazer novas aquisições. Como resultado, campeão no quesito
‘contradição’, o Brasil vive a esdrúxula situação de possuir, ao mesmo tempo, o
espantoso déficit habitacional de 7,9 milhões de moradias e a (igualmente
espantosa) disponibilidade de 6,7 milhões de imóveis, que, fora do alcance
comercial dos pobres e do desejo dos ricos, permanecem desabitados, como ativos
imobilizados ou a espera de clientes.
Segundo a Fundação João
Pinheiro, nas cidades brasileiras, onde há a oferta de 4,5 milhões de imóveis, o
déficit habitacional atinge 6,4 milhões de famílias. Quer dizer, enquanto 4,5
milhões de imóveis permanecem fechados nas zonas urbanas, sem qualquer tipo de
uso, entregues a especulação ou ilustrando anúncios imobiliários não
correspondidos, 6,4 milhões de famílias não têm onde morar, habitando as margens
dos rios, córregos e mangues em palafitas insalubres, as favelas e invasões em
mocambos precários ou, mesmo, as ruas, tendo a brisa como parede e o céu como
teto. O mais grave é que, como, das famílias desabrigadas, 90,3% têm renda de
até três salários mínimos – fora, portanto, espaço cadastral do sistema bancário
privado –, são poucos os caminhos capazes de solucionar o grave problema
habitacional que aflige pobres e miseráveis.
Mantido o atual sistema de
mercado, para superar o déficit habitacional nas faixas populares – que, sem
freio, cresce ao ritmo alucinado de novas 900 mil moradias a cada ano –, resta a
possibilidade dos financiamentos públicos de longo prazo. A Caixa Econômica
Federal, ancestral e herdeira do sistema financeiro da habitação, já fez as
contas e avisa que, para resolver o problema habitacional das famílias com renda
de até 3 salários mínimos, nas zonas urbanas do país, precisará investir R$
12,52 bilhões nos próximos quinze anos. Mantido este prazo, o investimento anual
deveria ser de R$ 3,62 bilhões para resolver o problema habitacional no
Nordeste, onde 1,75 milhões de famílias com renda de até 3 salários mínimos não
têm onde morar; de R$ 650 milhões anuais para solucionar o problema habitacional
em Pernambuco, onde o déficit habitacional atinge 315 mil famílias de renda de
até 3 salários mínimos; e R$ 410 milhões para abrigar as 200 mil famílias que
vivem ao relento ou em situação precária na Região Metropolitana do Recife.
Além de resolver a
dramática e desumana situação das famílias que, em função da baixa renda, estão
fora do mercado imobiliário e, conseqüentemente, não têm onde morar com
dignidade, a implementação de um programa de habitação popular constitui uma
significativa plataforma para o crescimento econômico de país, pois a construção
é um dos setores econômicos de maior capacidade multiplicadora de investimentos
e de empregos. De fato, indústrias, empresas de logística, construtoras,
fornecedores, profissionais e seguimentos econômicos que orbitam o setor da
construção formam uma longa cadeia que percola a sociedade em vasos comunicantes
que podem ser usados para intensificar a circulação da renda para irrigar e
dinamizar o mercado interno do país. Assim, estimulada por um programa de
habitação popular, a indústria da construção pode compor uma eficaz correia de
transmissão de benefícios para toda a sociedade, com reflexos positivos
imediatos na grave crise social que perturba a segurança das cidades
brasileiras. Afinal de contas, tendo em vista a alta propensão ao consumo (em
parte provocada pelos baixos salários), cada centavo colocado no bolso dos
profissionais que se empenham na construção – pedreiros, eletricistas,
carpinteiros, ferreiros, serventes, mestres, engenheiros, arquitetos, etc. – é
imediatamente transferido para o comércio, cujas vendas dinamizam os setores
produtivos. De modo semelhante, as encomendas aos fornecedores de materiais de
construção alimentam a respectiva indústria, provocando novos benefícios,
inclusive a geração dos empregos tão necessários nestes tempos bicudos.
O crescimento econômico
decorrente de um programa de habitação popular pode elevar a renda dos
brasileiros, removendo, inclusive, algumas das causas que contribuem para a
existência do estoque de 6,7 milhões de imóveis que, encalhados, abarrotam as
prateleiras das imobiliárias à espera de compradores. Nos meios comerciais,
traduzindo a situação em que ficam satisfeitos compradores e vendedores, costuma
se dizer que “um negócio só é bom quando é bom para ambas as partes”. Nesta
perspectiva, pode-se dizer que o mercado imobiliário brasileiro viverá seus
melhores dias quando, aliviados das pressões impostas pela baixa renda, os 190
milhões de brasileiros puderem realizar o sonho da casa própria, gerando os
negócios que alegram a indústria de construção e as empresas imobiliárias.
(*) Alexandre Santos é
presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco
Recife, 02
de julho de 2007.
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