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Na
manhã da 3ª feira, 23 de agosto de 2005, vinte famílias desesperadas com
iminência da perda do teto que, há quatro meses, tinham conseguido para
abrigar seus sonhos e pesadelos se recusaram a atender a ordem de
despejo do imóvel ocupado na rua Velha, no centro do Recife, e, aos
gritos de ‘queremos teto e pão’, armados apenas com paus e pedras,
enfrentaram o Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco,
chegando a atear fogo na casa. A rua se transformou numa praça de
guerra. Em batalha de resultado facilmente previsível, a polícia fez
valer sua força e, com o emprego de bombas de efeito moral, balas de
borracha e gás lacrimogêneo, esmagou a tênue resistência dos sem-teto,
garantindo a reintegração do imóvel a seu proprietário legal. Foram
presos 16 homens, um dos quais corre o risco de ficar cego de um dos
olhos, dez mulheres, uma das quais já nos últimos meses de gravidez, e,
ainda, seis crianças. A lei foi aplicada e, após indiciamento em dez
crimes, os homens, todos de idade entre 21 e 23 anos, foram encaminhados
à penitenciária de Abreu e Lima.
Enquanto o fogo ardia em Recife, em Brasília a Caixa Econômica Federal
anunciava a disponibilidade de R$ 1 bilhão para atender famílias de
renda mensal superior a R$ 4.900 com financiamento de imóveis de valor
até R$ 150 mil. Mas, será que as famílias que foram levadas à prisão
porque lutavam pelo direito à moradia se enquadram nas exigências
requeridas para o financiamento da casa própria? Evidentemente que não.
Se tivessem a renda exigida, ao invés de invadir imóveis, estariam
diante dos gerentes de banco, tratando da documentação para os
financiamentos.
Neste caso, como em tantos outros, prevalece uma espécie de autismo, que
leva o governo a desconhecer a realidade do país. De fato, parecendo não
saber do vergonhoso déficit habitacional que há no país, ampliando
favelas e contribuindo para a instalação de uma perigosa guerra urbana,
como a que se viu no Recife, o Conselho Monetário Nacional (CMN) está
preocupado em melhorar os números atingidos em 2004, quando as empresas
filiadas à Associação Brasileira de Entidade de Crédito Imobiliário e
Poupança (Abecip) concederam créditos imobiliários no valor de R$ 3
bilhões, especialmente à classe média alta. Á guisa de instituir um
arremedo de política habitacional, recentemente o CMN baixou resolução
obrigando a expansão do crédito imobiliário em 50% e incentivando o
financiamento de imóveis com valores inferiores a R$ 150 mil com taxas
de juros de 9% ao ano. Uma política inócua e irreal, pois, como bem
lembrou o gerente de operações da Nossa Caixa, Natalino Gazonato, as
camadas mais pobres da população, justamente as que sofrem com o déficit
habitacional, não dispõem do poder aquisitivo compatível com os
empréstimos. Em boa hora, o gerente da Nova Caixa ainda ressaltou que,
também oprimida por baixos salários, a classe média demonstra grande
receio em relação aos financiamentos de longo prazo, pois enfrenta
grande incerteza em relação ao futuro, inclusive com a manutenção do
emprego.
É
hora do governo federal tratar de resgatar parte da dívida que, ao longo
dos tempos, contraiu com a sociedade. Deve, por exemplo, estimular a
produção de casas populares. Para isso, poderia usar parte do superávit
primário, que este ano, só no primeiro semestre, já alcançou R$ 44,948
bilhões. Além de reduzir a gravidade da questão habitacional, a
implementação de um largo programa de casas populares estimularia a
construção civil, impulsionando a geração de emprego e renda, num
gradiente de prosperidade que alcançaria toda a sociedade.
Que
as famílias não precisem invadir a propriedade alheia para ter onde
morar! Que as cidades não vivam a insegurança da guerra urbana! Que o
governo adote um largo programa de habitação popular!
Publicado originalmente
na Folha de Pernambuco, em sua edição de 1º de setembro de 2005.
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