É preciso salvar a Fundaj dos moleques

Nos dias correntes, reprisando o terror que o serviço público viveu nos governos dos presidentes Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, paira uma grave ameaça sobre a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), entidade de natureza científica e cultural criada em 1949 com a finalidade de promover estudos e pesquisas no campo das ciências sociais nas regiões Norte e Nordeste do país.
Disposto a desmontar a capacidade operacional da Fundaj, o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva quer levá-la a ruína por inanição. Com efeito, depois de extirpar-lhe 44 cargos no início de 2003 e outros 05 agora em junho, o Ministério da Educação anunciou que, além de querer surrupiar mais 70 cargos da estrutura organizacional da fundação, ainda pretende extinguir outros 32 cargos. Sem coragem para assumir que os cargos afanados da Fundaj são transferidos para outros órgãos federais [com base no eixo Rio-São Paulo] e que, a cada desfalque, a entidade de estudos do norte e nordeste do país perde capacidade operacional, os verdugos irresponsáveis se escondem sob o velho e surrado discurso da “reforma administrativa que visa aumentar a eficiência da máquina pública”. Má fé. Pura má fé. Eles sabem que a cada cargo que suprimem, reduzem igualmente a funcionalidade da entidade, pois são extintas unidades, desativados setores e colocados em risco programas inteiros. Sabem, mas, mesmo assim, insistem no processo de desmonte.

Nunca é demais lembrar que a Fundaj cumpre objetivos essenciais ao processo de planejamento e de fortalecimento cultural e econômico das regiões em que atua – promover estudos, pesquisas, planos e projetos destinados à compreensão da realidade sócio-econômica e cultural; preservar os valores histórico-culturais, promover o aperfeiçoamento e a especialização de recursos humanos; contribuir para o desenvolvimento empresarial brasileiro; e oferecer assistência educacional gratuita a estudantes carentes. Esta é a verdadeira razão que faz o governo federal querer desmontar sua capacidade de trabalho.

Qualquer que seja o discurso, a triste realidade é que, desde que, no governo Collor, o vendaval liberal começou a bafejar o país, todas as entidades importantes para o processo de planejamento passaram a ser alvo de operações de sucateamento e desmonte. Esta foi a razão pela qual, apesar das inúmeras tentativas feitas de 1989 até 2005, a Fundação Joaquim Nabuco não obteve autorização do governo federal para fazer concursos para preenchimento das vagas existentes. Os liberais não suportam a idéia de que o governo disponha de instrumentos essenciais ao bom planejamento. Querem, ao contrário, aniquilar toda e qualquer possibilidade de que isso possa acontecer.

Alguns, impressionados pela coincidência da sangria dos cargos públicos sediados no nordeste sempre em direção ao eixo Rio-São Paulo, creditam a atual tentativa de desmonte da Fundaj aos sudestinos encarapitados no governo, sempre interessados em debilitar, ainda mais, as sofridas regiões norte e nordeste do país. Infelizmente, não é apenas isso. Na realidade, o sucateamento da Fundaj tem como pano de fundo o desejo de eliminar toda e qualquer possibilidade de planejamento de longo prazo, submetendo a região aos humores do mercado. O sucateamento da Fundaj, assim como o desmonte das estruturas que amparavam a Sudam e a Sudene, representa uma investida contra o processo de planejamento estatal. De fato, por trás das estocadas desfechadas pelos burocratas de plantão e gestores de ocasião, se esconde uma tenebrosa articulação que tenta privar o norte, o nordeste e o país de um eficaz instrumento de conhecimento da nossa terra e da nossa gente, gerando, como contraponto desse abandono, uma situação que aplaina, ainda mais, a estrada do anarquismo econômico caracterizado pelo fundamentalismo de mercado.

È preciso salvar a Fundaj dos moleques que pretendem entregar a região à súcia de sempre.
 

Texto publicado no Blog do Magno.