A flor e a serpente

No final de outubro de 2007, desta vez por 184 votos favoráveis e apenas quatro votos contrários e uma abstenção, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou resolução que reitera o pedido anual para que os EUA suspendam o desumano embargo comercial e financeiro que sufoca Cuba desde 1962. Evidentemente, como das vezes anteriores, o pedido da ONU sequer foi ouvido pelo departamento de Estado dos EUA, cuja política de mão-única tem o objetivo exclusivo de impor desejos e interesses da Casa Branca ao Planeta e, não de acolher pedidos ou decisões da comunidade internacional – embora o desdém pela ONU faça parte da personalidade do Tio Sam, o desrespeito dos EUA pela comunidade internacional é camuflado pela mídia e só ficou claro, surpreendendo mal-informados e decepcionando norte-americanófilos, nos episódios que redundaram na invasão e ocupação do Iraque, quando, desobedecendo todas as decisões das Nações Unidas, inclusive as tomadas pelo Conselho de Segurança, o Pentágono lançou o fracassado plano para despojar o mar de petróleo no qual bóia o país-berço da nossa civilização.

Agora, numa espécie de aviso à ONU, dias antes da Assembléia Geral das Nações Unidas, George W. Bush quebrou o silêncio que mantinha desde 2003 e voltou a falar sobre Cuba. Em meio ao discurso confuso de sempre, Bush, que (respaldado pela irresistível máquina de guerra dos EUA) se proclama árbitro da democracia e da liberdade, avisou que seu país manterá o embargo até que ocorram “mudanças políticas” na Ilha.

As tais ‘mudanças políticas’ a que Bush se refere são, pura e simplesmente, a derrubada do governo de Fidel Castro, que, desde julho de 2006, vem sendo exercido por Raúl Castro. Ou seja: usando a pressão econômica como arma de guerra, asfixiando (e matando) um povo inteiro (e isso é genocídio), a Casa Branca não esconde que quer derrubar o governo de um país soberano. Se não fosse o suporte da mídia internacional – que, abusando de técnicas de manipulação do imaginário coletivo, confunde o tirocínio das pessoas –, a humanidade já teria percebido o significado golpista deste boicote e desmascararia a falácia usada pela EUA para ‘justificar’ a agressão ao povo cubano, desbancando a Casa Branca da condição de guardiã da democracia e da liberdade em que ela própria se entronou.
Que mal Cuba faz aos EUA, a não ser provar que, mesmo num país pobre, o socialismo consegue erradicar o analfabetismo, reduzir a números ínfimos a mortandade infantil, ampliar ao máximo a qualidade dos serviços públicos de educação e saúde ou, mesmo, mostrar ao mundo que é possível sobreviver com dignidade aos boicotes norte-americanos? Que mal fez o povo cubano para merecer esta agressão, que vem desde os tempos de John Kennedy? Os norte-americanos não têm respostas para estas perguntas e nem para a Assembléia-Geral das Nações Unidas, que, ao exigir a suspensão do embargo, disse com todas as letras que o boicote dos EUA a Cuba é “contrário à Carta das Nações Unidas e ao direito internacional que reafirma, entre outros itens, a liberdade de comércio e navegação”.

O interessante é que, mesmo assim, agindo de forma ilegítima e ilegal, os EUA têm a petulância de evocar palavras como ‘democracia’ e ‘liberdade’ para prosseguir com a perversidade. E, com medo de que a verdade venha à tona, como uma Anaconda que aplica o abraço da morte para esmagar a gentil flor da vida, os EUA usam seu poder militar e comercial para sufocar e humilhar o bravo povo cubano.
Seria muito bom que, livres dos grilhões do império, os povos pudessem melhor se conhecer e, com base na solidariedade universal e no respeito aos costumes, culturas e soberanias, compor uma comunidade internacional fraterna.

Texto publicado no Blog do Magno.