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O nosso Brasil
é um país com muitas coisas estranhas. Uma delas é o completo desamparo
técnico que aflige as populações mais pobres. Ao contrário do que ocorre
com a medicina, onde, bem ou mal (e, frise-se, mais mal do que bem),
existe o Sistema Único de Saúde (SUS), ou com a advocacia, onde,
igualmente, bem ou mal (e, frise-se, também mais mal do que bem), a
defensoria pública está à disposição de todos, no campo da engenharia não
há qualquer instrumento público que socorra a população mais pobre. É como
se não houvesse o artigo 6º da Constituição Federal de 1988 ou a Emenda
Constitucional nº 26 do ano 2000, que elevam a moradia à condição de
direito social.
A inexistência
de um sistema público de assistência técnica amplia a grave questão
habitacional, pois inviabiliza a realização de programas populares
baseados na autoconstrução. A mensagem deixada pela não existência de um
sistema público de assistência técnica parece clara: cada um que se vire
para resolver o seu problema de moradia.
Sem um serviço
público de assistência técnica, os conhecimentos científicos da
engenharia, arquitetura e agronomia ficam limitados ao circuito mercantil
e, portanto, restritos aos que podem pagar. Os demais – justamente os mais
pobres –, marginalizados da ciência e da tecnologia construtiva, que façam
casas como melhor lhes aprouver. E pululam favelas encarapitadas em
encostas alpinistas, palafitas equilibradas em estacas surrealistas,
moradias insalubres e inseguras, destocamentos e fertilizações
antiecológicos, etc. Como castores e abelhas, os pobres desprovidos de
orientação técnica sobre como projetar e construir, se fazem dublês de
arquitetos, agrônomos e engenheiros. Como conclusão, uma engenharia feia e
insegura: casas mal projetadas e mal construídas, riscos, desconfortos e
perigos.
E, muitas vezes sem lembrar as raízes do grave problema habitacional,
algumas pessoas não compreendem a legítima luta dos sem teto e se
incomodam com a precariedade e feiúra das casas habitadas pelos mais
pobres e se horrorizam com notícias sobre desabamentos de edifícios e
marquises, deslizamentos de barreiras, soterramento de casas.
Vítimas do
abandono que se revela pela ausência de programas de habitação popular,
7.9 milhões famílias brasileiras estão sem teto, aparteadas do direito
constitucional à moradia. Para ter um lugar onde morar, além de, muitas
vezes, precisar arrancar à força um pedaço de chão, estas pessoas não
contam com qualquer serviço público de assistência técnica e, forçadas
pela realidade cruel, lançam mão do que têm ao alcance – taipa, madeira,
papelão, alvenaria estrutural e, mesmo, concreto – e edificam moradias em
sistemas construtivos que desmoralizam manuais científicos, planos
diretores e códigos de obras.
Morar e morar
bem, em condições salubres e seguras, é um direito das pessoas e mostra,
na imagem inversamente recíproca, mais um dever no vasto rol daqueles não
cumpridos pelo Estado. Se estiver disposto a garantir o direito
constitucional à moradia destas 7.9 milhões de famílias desabrigadas, o
governo precisa urgentemente adotar, não só, um largo programa de
habitação popular, mas, também, instituir um sistema público de
assistência técnica, que ofereça orientação de como projetar e construir
casas.
Alguns não
vêem a idéia de um sistema público de assistência técnica como pano de
fundo de um direito constitucional e, sim, como um incentivo às invasões –
uma linha de raciocínio equivocada que, se aplicada ao direito,
justificaria a extinção da defensoria pública sob o argumento de que ela
incentivaria o crime ou, se aplicada à medicina, justificaria a extinção
do SUS sob a alegação de que ele estimularia o absenteísmo. Nunca é demais
lembrar que o que leva às pessoas aos legítimos atos que visam garantir um
teto para morar é o sistemático desrespeito ao seu direito constitucional
à moradia. Da mesma forma que assistência à saúde e à justiça, as pessoas
também têm direito à técnica.
Apenas por ser
pobre, uma pessoa não pode ser condenada a ignorância técnica e ser
exposta a erros que podem destruir patrimônios e ceifar vidas.
Texto publicado no Blog do Magno.
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