Geraldo Ferraz saúda o escritor Raimundo Carrero

 


RAIMUNDO CARRERO O METICULOSO ESCRITOR NORDESTINO

Geraldo Ferraz*

Discorrer sobre a vida e a obra deste bravo amigo, não é tarefa das mais fáceis, principalmente pelo sentimento de admiração que tenho por ele.

A pessoa notável, ora homenageada, que receberá o Diploma do Mérito Cultural da União Brasileira de Escritores, seccional de Pernambuco é, nada mais nada menos, do que um dos maiores nomes da literatura brasileira e, assumir tamanho desafio, é muita responsabilidade para este interlocutor.

Raimundo Carrero nasceu em Salgueiro, no Sertão pernambucano, onde fez seu curso primário.

No Recife, estudou no Colégio Salesiano.

Em seus diversos depoimentos, Carrero informa que descobriu a literatura através da biblioteca de seu irmão mais velho e começou a escrever utilizando-se de papéis da loja do pai.

Sua primeira novela, Grande mundo em 4 paredes, foi escrita entre 1968 e 1969 e, segundo ele, “era obra de menino” e, o primeiro livro, foi A história de Bernarda Soledade: a tigre do Sertão, publicado em 1975, esta obra foi escrita quando ele tinha 23 anos de idade.

Pela sua multiplicidade, apresento os diversos Carreros, que estão contidos no Raimundo Carrero:

Carrero o músico.

Antes de ser escritor, criou um conjunto musical denominado Os Cometas (1964), uma banda de rock do Sertão. Quando se mudou para o Recife, na década de 1970, tornou-se músico profissional, tocando saxofone em uma nova banda de rock chamada Os Tártaros. – esta última, famosa na região inteira, chegou a abrir shows de Roberto Carlos.

Carrero e o desporte

Ele se intitula um rubro-negro exemplar. Carrero diz que escreve com a mesma valentia que torce pelo Leão da Ilha. Ele declara aos amigos: “Eu não sou nada, só sou Sport”.

Carrero e Ariano Suassuna.

O seu primeiro livro, "A História de Bernarda Soledade - A Tigre do Sertão", que obteve ótima repercussão mesmo fora de Pernambuco, teve como prefaciador o mestre Ariano Suassuna.

Carrero, em depoimento à Heloísa Buarque de Hollanda, sobre Ariano, assume, com muita emoção, que: “Tudo que se pode esperar de um grande orientador, de um grande mestre, tive de Ariano. Tenho até vergonha de lembrar, mas eu chegava na casa dele aos domingos, às vezes às nove da manhã, e saia às nove da noite, estudando literatura, conversando sobre autores. Ele ia buscar livros na estante, anotava meus textos. Era como ter uma universidade inteira aos meus pés”.

Carrero o Jornalista.

De 1969 a 1991, trabalhou no jornal Diario de Pernambuco, onde exerceu diversos cargos e funções: repórter, redator de primeira página, chefe de reportagem, secretário de redação, além de crítico literário e editor nacional.

Atuou, também, no rádio e na televisão. Foi chefe de redação da Televisão Universitária de Pernambuco onde, entre outras atividades, apresentou o telejornal Conversa de Redação, além de ser redator do Jornal Universitário, publicado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Carrero o teatrólogo

É autor da peça Anticrime, encenada no Teatro do Parque pelo grupo de Otto Prado, e fez uma adaptação da novela A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, representada no Teatro Barreto Júnior.

Carrero o escritor

Carrero se confessa um operário da literatura, com dedicação exclusiva de 24 horas. Confessa, também, que é um ofício que lhe tira o sono por causa da própria cobrança a que se impõe.

Suas profundas raízes nordestinas o prendem, fortemente, a terra, motivo dele não trocar Recife pelo eixo sudestino. Acredito que, possivelmente, seja esse o motivo de seu aguerrido combate contra a pecha de “regionalista”, um famigerado presente de grego que os escritores nordestinos costumam ganhar.

Sobre o trabalho literário de criação baseia-se na concepção de que a escrita é fruto mais da transpiração do que da inspiração, afirmando que “Não existe inspiração nem talento, mas trabalho, muito trabalho”.

O prestigiado crítico literário, carioca, José Castello, destaca que Carrero é um autor com o gosto pela invenção, dono de uma escrita arrancada dos nervos e que tem a coragem de errar. Suas obras retratam o cenário e a gente do Sertão e do Recife, mas sua temática não se restringe ao regionalismo.

Outras obras publicadas:
• As sementes do sol: o semeador (1981);
• A dupla face do baralho: confissões do Comissário Félix Gurgel (1984);
• Sombra severa (1986);
• Viagem no ventre da baleia (1986);
• O senhor dos sonhos (1987);
• Maçã agreste (1989);
• Sinfonia para vagabundos (1992);
• Extremos do arco-íris (1992);
• Somos pedras que se consomem (1995);
• As sombrias ruínas da alma (1999);
• Orlando Parahym: o arco e o escudo (2001);
• Ao redor do escorpião.. uma tarântula? (2003);
• Os extremos do arco-íris (2004);
• O delicado abismo da loucura (2005);
• Os segredos da ficção: a arte de escrever (2005);
• O amor não tem bons sentimentos (2007);
• Contos de Oficina nº 4 (2007).

Carrero o Imortal.

É membro da Academia Pernambucana de Letras, ocupando a Cadeira nº. 3, desde dia 20 de janeiro de 2005, e da Academia de Artes e Letras de Pernambuco (Cadeira nº. 6).

Carrero e a influência das mulheres em sua obra.

Das páginas da INTERPOÉTICA, tenho o prazer de desfiar parte de uma entrevista, exclusiva, concedida por Carrero à sua companheira e poetisa Marilena de Castro, na qual fala das mulheres.

Destaca Carrero que as mulheres sempre foram muito fortes na sua obra. A partir do seu primeiro livro - "A História de Bernarda Soledade - A Tigre do Sertão".

Sobre a influência das mulheres de sua família nas personagens de sua obra, afiança Carrero que a primeira foi sua mãe, Maria Gomes de Sá e, depois, suas irmãs: Terezinha, Geralda, Lenilce, Maria Anália e Margarida. Destaca o autor que foi criado e conviveu muito com mulheres.

A propósito da morte de sua mãe, alega que, posteriormente, passou a descrever em seus livros, todos os rituais de morte que presenciou, com velas acesas, defumadores, rezas, assim como em "As sementes do sol - o semeador". Assevera que, por ter acompanhado todo o sofrimento da mãe, a morte, como ritual de passagem, passou a ser um símbolo dos seus personagens.

A respeito das oficinas literárias, Carrero diz que representam uma das coisas mais importantes de sua vida intelectual. Tão importante quanto escrever. Confessa que “Cada cena exige uma técnica nova, sofisticada ou não. E cada vez quero tornar a oficina cada vez mais profissional e mais reveladora de escritores”.

Carrero e as Oficinas Literárias.

Há mais de quinze anos criou e orienta oficinas literárias uma das quais na União Brasileira de Escritores, Seccional de Pernambuco e na Livraria Domenico, além de participar das diversas Bienais do Livro realizadas no Brasil, e de diversas Festas Literárias.

Carrero e as premiações

Com o romance "Somos pedras que se consomem", de 1995, ganhou o prêmio de melhor romancista do ano, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), e o Prêmio Machado de Assis, instituído pela Biblioteca Nacional, de melhor romance do ano.

Em 2000, Raimundo Carrero conquistou o Prêmio Jabuti de Contos e Crônicas, com o livro de contos "As sombrias ruínas da alma".

Outras premiações: Revelação do Ano, Prêmio Oswald de Andrade, no Rio Grande do Sul, com Viagem no ventre da baleia; Prêmio José Condé, concedido pelo Governo de Pernambuco, pelo livro Sombra severa; Prêmio Lucilo Varejão, da Prefeitura do Recife, com O senhor dos sonhos.

Como se não bastasse, Carrero integrou, durante oito anos, o Conselho Municipal de Cultura do Recife (nas gestões dos prefeitos Antônio Farias e Gustavo Krause), fez parte do Movimento de Cultura Popular e, de 1995 a 1997, foi presidente da Fundação de Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco (Fundarpe), no Governo Miguel Arraes, além de secretário-adjunto de Cultura, em 1998.

Em entrevista ao jornalista Rogério Pereira, criador e editor do jornal literário Rascunho, de Curitiba, podemos extrair, para o nosso aprendizado, as dez regras que norteiam o escritor Raimundo Carrero, eis o seu decálogo:

1. Acredite: não existe inspiração.
2. Escreva. Escreva. Escreva.
3. O talento é a melhor maneira de o escritor estar lento.
4. Conduza sempre caneta e papel no bolso - ou agenda eletrônica: anote tudo o que pensa e quer.
5. Leia muito. Os clássicos, de preferência. Homero, Virgílio, Dante. Mas não esqueça os contemporâneos.
6. Um escritor deve conhecer bem o seu ofício. Estude muito. Estude sempre.
7. As histórias estão bem próximas. Use a memória. Sem medo.
8. Use as condições objetivas: tenha uma boa biblioteca e um lugar reservado para escrever.
9. Um bom prosador deve ler poemas. E um bom poeta deve ler romances, novelas, contos.
10. Seja simples. Mas a simplicidade deve apenas esconder a sofisticação. Aprenda com Machado de Assis, Manuel Bandeira, Carlos Drummond e Autran Dourado.

A 7ª edição da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que traz como tema Literatura do início ao fim, promoverá, também, com toda justiça, fantástica homenagem ao ilustre Carrero.

Caros amigos, com todos os méritos que lhes são devidos, a UBE-PE homenageou, esta noite, o meticuloso escritor Raimundo Carrero, para quem peço uma grandiosa salva de palmas.


 

                                                                                                                       Recife, 23 de julho de 2009

 

 

(*) Geraldo Ferraz é Vice-Presidente da UBE.