Alexandre Santos

"Que o pássaro da literatura alce vôo e espalhe o germe da liberdade permitida pela leitura e pelo conhecimento, fazendo de cada brasileiro um protagonista da história que o mundo escreve".
 


Dia Nacional do Escritor

Alexandre Santos*

Introdução

No próximo sábado, dia 25 de julho, em obediência a um decreto assinado pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1960 – um ano e meio após a criação da nossa UBE em Pernambuco –, o País comemorará o Dia Nacional do Escritor – o dia oficialmente dedicado aos artistas e cientistas da palavra, construtores e escultores dos textos que registram os sonhos dos homens e a história da humanidade. Passados 50 anos, a despeito dos inegáveis avanços na condição geral do País e da existência de bolsões e articulações sinceramente preocupadas com o avanço cultural da sociedade, mais há o quê fazer e pelejar do que festejar.

Mas, as comemorações fazem parte da peleja e, por isso, hoje, a UBE reúne amigos das letras para festejar o DIA NACIONAL DO ESCRITOR e o faz em grande estilo, dando fecho de ouro ao período comemorativo do cinqüentenário (17 de janeiro de 1958) e chamando a atenção para a importância dos escritores para a formação de uma sociedade saudável em todos os aspectos.

E, com este desígnio, sob o honroso testemunho de todos vocês e sob a proteção de Deus, que a UBE prestou mais uma justa homenagem a Raimundo Carrero – escritor que, de um lado, encarna a competência e a sensibilidade do que existe de melhor na nossa literatura e, de outro, encarna a luta da UBE para bem cumprir os objetivos a que se propõe; formalizou a designação do escritor Olímpio Bonald Neto para o cargo de Presidente Emérito, preenchendo a lacuna deixada por William Ferrer para nos garantir o brilho que merecem os faróis do belo e do certo; e, em breves instantes, inaugurará o monumento representativo das realizações e sonhos alimentados nos primeiros 50 anos de jornada – um significativo obelisco encimado pelo ‘Pássaro’ esculpido por Brennand, cujo significado transcende este momento, percorrendo a perspectiva sinfrônica da literatura através dos tempos em nossa terra.

A alegria que vivemos neste instante é enorme, mas não nos anestesia nem nos desvia da responsabilidade com a realidade, nem do dever de impregná-la com os sonhos de bem e de bom que os homens das letras cultivam.

Porque a UBE deve comemorar o dia nacional do escritor

Estamos conscientes de que muito há por fazer.

O escritor não é apenas um artista ou um sonhador, como muitos pensam. Antes de tudo – como, de modo geral todos os artistas –, [o escritor] é um guerreiro, que tem na produção literária apenas a primeira batalha. De fato, o escritor não é uma entidade cínica que se basta a si mesma. É um artista que para se fazer completo precisa ser correspondido por um leitor.

Ele sabe que um livro não lido é uma obra inacabada e vê com tormento os obstáculos que tem pela frente até realizar o diálogo que o faz completo (a comunhão com o leitor).

Ao concluir o texto, o escritor se vê diante de uma maratona de resultado incerto, pois, sequer, sabe se conseguirá publicá-lo. Quantos textos inéditos jazem no fundo de gavetas abarrotadas e nas memórias de computadores letrados?

Poucos conseguem publicar e, destes, nem todos conseguem ultrapassar as barreiras que o separam do leitor. Muitos se vêem impotentes diante das misteriosas e dispendiosas trilhas da distribuição, da divulgação e da comercialização.

Muitas vezes, mesmo dono da arte que o faz escritor, o artista da palavra não consegue compartilhar seu talento com o leitor e padece as angústias do ser incompleto.

Visto por outro prisma, os problemas que acometem os escritores ganham nova e assustadora envergadura, pois desnuda um processo que compromete a realização do bem estar social.

Além de ser um país onde se publica pouco – o que indica repressão da oferta de arte literária e, conseqüentemente, a frustração de muitos sonhos e a negação de muitas oportunidades –, o Brasil é um país que lê menos ainda.

Os números são chocantes.

De acordo com o Mapa do Analfabetismo, no Brasil há 16 milhões de analfabetos ab-solutos e 30 milhões de analfabetos funcionais.
A pesquisa 'Retratos da Leitura no Brasil' realizada pela Câmara Brasileira do Livro aponta que dos adultos alfabetizados 61% não têm nenhum contato com livros; apenas 35% dos alfabetizados lêem alguma coisa e só 5% lêem livros – destes, a maioria é integrada por adolescentes incluídos em programas governamentais que fazem da leitura de livros didáticos distribuídos gratuitamente uma tarefa compulsória; Para 6,5 milhões de pessoas, o livro é um artigo de luxo, fora de sua capacidade aquisitiva.

A combinação de preços e outros fatores faz com que a) a classe A (que, juntamente, com a classe ‘B’, apresenta a maior concentração de leitores) seja responsável pela aquisição de 73% dos livros vendidos no País; b) as vendas se concentrem nas regiões Sul e Sudeste; e
a venda de 73% dos livros seja feira a apenas 16% da população nacional.

Por tudo isto, os escritores comemoram o seu DIA almejando não apenas condições que possibilitem-nos publicar os textos produzidos, mas, também, que os brasileiros sejam estimulados ao hábito da leitura e alcancem condições que lhes permitam consumir os bens culturais que desejam

Este é parte do sonho que anima a UBE desde os tempos de Paulo Cavalcanti – nosso primeiro presidente que, hoje, dá nome a esta Casa – e, igualmente, comungado pelos escritores Nagib Jorge Neto, Frederico Pernambucano de Melo, Dione Barreto, Olímpio Bonald Neto, Flávio Chaves e Vital Correia de Araújo, que o sucederam e presidiram a entidade até os dias correntes.

A renitência da UBE em favor do escritor e da sociedade

Talvez a relutância que alguns têm para se irmanar à festa dos escritores, fazendo do País uma nação de leitores, tenha razões de natureza política, pois a cultura e o sentimento crítico dela advindo assusta os conservadores e manipuladores.

Não foi outra a razão da UBE ter sido forçada a longa hibernação a partir de 1964, levando Paulo Cavalcanti e muitos outros a desafiar a mordaça imposta pelo autoritarismo, manifestando o grito de liberdade contido no peito dos brasileiros em reuniões secretas, muitas das quais realizadas à luz de velas.

Não é outra a razão da baixa prioridade historicamente atribuída pelos governos à cultura e à educação.

Não é outra a razão dos escritores estarem permanentemente na alça de mira de golpistas e insensíveis, como hoje acontece em Honduras – onde os artistas da palavra são impedidos de proclamar o sonho popular – e, aqui em Pernambuco – onde a sede da entidade maior – a Casa do Escritor Pernambucano – é submetida a uma humilhante tentativa de esbulho, com invasão e bloqueio do terreno destinado a construção do auditório, da biblioteca e do pavilhão de eventos literários, sonhos acalentados há muitas décadas.

Ao desdém às artes literárias manifestado por esses senhores confrontamos a força da nossa pena e a sensibilidade da opinião pública, que está a nosso favor.

Os sonhos da UBE

Com a experiência adquirida em seus 50 anos de existência e com a obstinação dos escritores pernambucanos, a UBE vem se desvencilhando das dificuldades que naturalmente se interpõem aos seguimentos artísticos e vem cumprindo sua parte para fazer de cada dia um DIA NACIONAL DO ESCRITOR, contribuindo para o desenvolvimento cultural da nação, defendendo os direitos fundamentais dos escritores e zelando pelos interesses dos homens das letras.

Assim, com o objetivo de fazer da cultura um instrumento de libertação das pessoas e, da literatura, um campo de realização plena dos amantes das letras, a UBE, através dos sócios e dos diretores, vem se empenhando na luta

pela completa alfabetização do povo brasileiro,

em defesa da herança literária, histórica, científica e artística do País,

em defesa das tradições e da língua pátria,

pela criação de condições que atendam as necessidades culturais da nação,

em defesa das liberdades democráticas,

pela solidariedade internacional dos povos e

pela consagração de políticas públicas que

garantam o ensino público de qualidade,

incentivem as artes e a pesquisa científica,

incentivem a produção e o consumo universal de bens culturais, ampliando o mercado cultural, em especial dos bens literários, cuidando para que os artistas possam viver da arte que os anima,

democratizem o direito à informação e à comunicação de massa,

aumentem a qualidade e a quantidade de leitores e escritores,

estimulem a oralidade e cultivem a pluralidade étnica e a diversidade das manifestações culturais,

estimulem a criação e o funcionamento de movimentos e entidades literárias,

estimulem a construção de espaços literários e de convívio cultural,

realizem e patrocinem encontros, concursos, festivais e festas culturais,

estimulem o intercâmbio de saberes,

estimulem competências que permitam a formação de leitores, escritores e cidadãos participativos e

apóiem ações que visem criar e revitalizar bibliotecas e salas de leitura.

A importância artística e cultural da UBE

Ao longo de sua existência, a UBE-PE tem se mantido fiel ao espírito que a faz ser conhecida como Casa do Escritor Pernambucano, lutando pelo desenvolvimento cultural do Estado e do País, realizando projetos literários de cunho popular e erudito e apoiando movimentos, entidades e causas, especialmente as que valorizam a literatura e a cultura da nossa terra.

Recentemente, com o objetivo de alargar o espectro de inserção da UBE-PE e, com isso, ampliar o protagonismo cultural e o campo de interlocução da entidade, um grupo de escritores propôs a ‘União pelas Letras’ – um movimento que, acreditando ser a convivência dos diferentes setores literários a melhor forma de fazer brotar idéias e construir avanços culturais.

‘União pelas letras’ buscou, então, a participação de todas as organizações e movimentos literários com atuação do Estado, recebendo o apoio de representantes das academias, grupos regionais, segmentos independentes, engajados e contemporâneos para a implantação de uma filosofia de trabalho que, aos avanços construídos ao longo da história da UBE, incorpora experiências vividas por personalidades, entidades e movimentos atuantes mais diversos campos da cena literária pernambucana.

O movimento ‘União pelas Letras’ procura agregar à UBE a animação que dinamiza importantes movimentos literários como Invenção da Poesia, Lítera Pernambuco, Unicordel, Poesis, Vozes Femininas, Urros Masculinos, Nós Pós e tantos outros, enriquecendo o panorama geral da entidade com novos sabores, cores, odores, texturas e sonoridades.

Estamos convictos de que, com este reforço, integrando projetos participativos e articulados em amplas parcerias, a UBE amplia sua importância no sistema artístico local, regional, nacional e internacional, fortalecendo, conseqüentemente, a posição dos escritores pernambucanos e demais interessados na literatura e nas artes em geral

Sob a égide de ‘União pelas Letras’, com a disposição de fazer-se “a melhor Casa que um escritor possa ter”, a UBE se coloca como parceira – e, se for o caso, como estufa, incubadora e, mesmo, cúmplice – de movimentos, organizações e empreendimentos culturais dos diversos matizes expressões literárias, dando o melhor de si para criar as condições que os escritores e a literatura precisam e merecem.
Ao tempo que abraça todas as manifestações literárias, prestigiando a pernambucanidade que nosso escritor transpira e suspira, a UBE se insurge e, mesmo rejeitando sentimentos xenófobos, mobiliza forças para barrar as investidas de setores interessados em fazer prosperar regimes de hegemonia cultural alienígena, seja do exterior ou, mesmo, do eixo sudestino.

Vale salientar que a defesa que, hoje, a UBE faz da pernambucanidade, da altivez cultural do País e dos valores mais sublimes da humanidade não é nova.

Na realidade, embora os registros apontem 1958 com o ano do nascimento da enti-dade, a história mostra que, sob outros nomes, sempre existiu uma ‘UBE’ para congregar os escritores em torno dos valores pernambucanos, da cidadania e da humanidade em memo-ráveis campanhas como as que lutaram pela independência, pela abolição, pela república, pela democracia, pela paz, pelo amor.
Nos dias correntes, com olhos postos nestes horizontes, a UBE

a) se constitui em ‘Casa do Escritor Pernambucano’, funcionando como elemento de fortalecimento das entidades e movimentos que escrevem e fazem ler;

b) cultiva funcionamento suprapartidário e ecumênico, rechaçando projetos que pos-sam comprometer a altivez e a independência dos escritores;

c) busca presença em todo o Estado, procurando estreitar o relacionamento com es-critores, entidades e movimentos que rebentam e germinam por todo o Estado, do sertão ao litoral;

d) pretende se constituir em fórum de debate dos grandes temas relacionados à cul-tura, em geral, e literatura, em especial;

e) apóia todos os movimentos e empreendimentos culturais; e

f) se preocupa com o bom funcionamento de todos os elos da cadeia que separa a produção e o consumo de bens literários.

A importância política da UBE

Como outras associações e academias de letras, a UBE é um fórum literário – um instrumento de divulgação e preservação da língua portuguesa. Cumpre, portanto, um importante papel político e cultural.

Nunca é demais lembrar que, embora sofra alterações – pois, como ensinou Celso Cunha (1917-1989), sendo uma criação da sociedade, a língua “não pode ser imutável, tem de viver em perpétua evolução, paralela a da organização cultural que a criou” – as mudan-ças na língua não podem violar certos limites.

As palavras não devem ser manipuladas para atender a interesses espúrios.

Não devem ser usadas de forma irresponsável para que assumam significados diversos dos seus, de modo a confundir as pessoas em sua boa fé. Palavras como LIBERDADE, JUSTIÇA, DEMOCRACIA e, mesmo, PAZ e AMOR são freqüentemente manipuladas, em verdadeiros estelionatos lingüísticos que visam ajustar conceitos amplos a interesses mesquinhos em contextos limitados.

Nesta perspectiva, a UBE constitui uma trincheira privilegiada de defesa da língua portuguesa, desestimulando a ação dos salteadores da palavra, sendo, assim, um importante bastião de defesa da democracia e do bom relacionamento entre as pessoas.

A literatura, como todas as artes, não é um fim em si mesmo. É um meio para a conquista de melhores condições de vida para a sociedade. É um canal através do qual as pessoas podem adquirir condições para melhor compreender o universo e se fazer protagonista do processo de desenvolvimento

O bom funcionamento da literatura, portanto, não é de interesse apenas dos amantes da leitura e dos livros. O bom funcionamento da literatura é de interesse de todos, sendo, na maior parte dos casos, sinônimo de desenvolvimento social.

Assim, consciente dos compromissos que os escritores e demais homens das letras têm para com o bem estar da sociedade, a UBE exercita o compromisso de lutar pela liberdade substantiva dos amantes da literatura, oferecendo sua contribuição para efetiva para realização do bem estar social e desenvolvimento da Humanidade.

Este é o nosso desafio maior.

Viva o DIA NACIONAL DO ESCRITOR.

Viva o ESCRITOR BRASILEIRO.

Que o pássaro da literatura alce vôo e espalhe o germe da liberdade permitida pela leitura e pelo conhecimento, fazendo de cada brasileiro um protagonista da história que o mundo escreve.

Muito obrigado.

                                                                                                                       Recife, 23 de julho de 2009

 

 

(*) Alexandre Santos é presidente da UBE e da Academia de Letras e Artes do Nordeste.
e-mail: alexandresantos@br.inter.net