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Em 13 de
dezembro de 2007, em chique encontro no majestoso monastério de Jerônimo,
em Portugal, ao som do quarto movimento da Ode à Alegria da Sinfonia nº 9,
de Beethoven, presidentes, primeiros-ministros e ministros das Relações
Exteriores dos 27 países que integram a União Européia usaram sofisticadas
canetas de prata para firmar as versões em 23 idiomas do chamado Tratado
de Lisboa, um documento de 256 páginas que dá nova interpretação ao
conceito de democracia no âmbito daquele bloco, ampliando as atribuições
dos Parlamentos (Europeu e Nacionais), dando caráter permanente à
presidência da UE (que deixa de ser rotativa) e extinguindo o princípio da
unanimidade (as decisões passam a ser tomadas por maioria simples).
Com a
justificativa de que visa simplificar e acelerar o processo decisório na
União Européia, o Tratado de Lisboa sepulta a consulta popular como
instrumento necessário para a aprovação de textos fundamentais do bloco,
inclusive a Constituição. O objetivo imediato do tal tratado é viabilizar
a aprovação da Constituição da União Européia, desautorizando a rejeição
popular ocorrida em 2005, quando, em eleições livres e democráticas, as
populações da França e da Holanda disseram um retumbante ‘NÃO’ ao projeto,
imaginando que, com isso, teriam decretado a morte do texto que seus
governos queriam (e querem) impor aos europeus. Agora, com o novo tratado,
o povo europeu não será consultado sobre decisões fundamentais para o
bloco e até 2009 a tal Constituição (a mesma rejeitada em 2005) será
aprovada pelos parlamentos nacionais.
O estranho é
que, ao contrário do que ocorreu no recente plebiscito para alteração da
Constituição da Venezuela, a mídia internacional permaneceu calada.
Imagine se
esse golpe de Estado tivesse ocorrido na Venezuela. Imagine se,
aproveitando o controle que tem sobre o parlamento venezuelano, o
presidente Hugo Chávez fizesse aprovar uma lei que dispensasse a exigência
de consultas populares e transferisse para o Congresso Nacional a decisão
sobre as mudanças constitucionais. O mundo viria abaixo. A mídia
internacional teria, com justa razão, exigido a volta da democracia.
Mas, como a
Europa não é a Venezuela de Hugo Chávez, a mídia calou-se.
Não deu um pio
sobre o caráter autoritário do Tratado de Lisboa, nem chamou de ditador
nenhum dos presidentes ou reis europeus.
Ao contrário,
referindo-se ao Tratado de Lisboa com o “resultado de um prolongado
processo de negociação”, a mídia internacional apresentou este duro golpe
no conceito de democracia como “o caminho mais correto para que a UE deixe
de se dedicar às suas questões institucionais e passe a lidar com uma
agenda em maior sintonia com as demandas da globalização”.
De sua parte,
como a mídia não falou, a classe média também não falou e, para todos os
efeitos, os presidentes, primeiros-ministros e ministros das Relações
Exteriores dos 27 países da União Européia, que assinaram o Tratado de
Lisboa, são os democratas, e o presidente Hugo Chávez, que promove
consultas populares regulares, é ditador autoritário.
Se o Tratado
de Lisboa não for autoritário, leis que dispensem a consulta popular em
nome da agilidade do processo decisório não o serão e, da mesma forma,
governos sem povo também não serão ditaduras. De toda sorte, talvez os
europeus tenham razão e, nesse caso, leis que objetivem agilizar a
implementação de certas reformas devam ser aprovadas sem referendos ou
plebiscitos, apenas pela vontade da maioria simples de parlamentos
eventualmente controlados pelo Executivo.
Com a palavra
os que acham democrático o sistema europeu e ditatorial aquele adotado por
Hugo Chávez na Venezuela.
Texto publicado no Blog do Magno.
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