É hora da sustentabilidade e responsabilidade cultural 

Muito se tem falado sobre desenvolvimento sustentável. Alguns, sem perceber a correlação do conceito com a capacidade de regeneração do planeta, apenas repetem uma fórmula geral segundo a qual “desenvolvimento sustentável é aquele que se auto-sustenta”. Eventualmente nem lembram que o termo-chave ‘auto-sustentação’ está associado à repro-dução dos meios e, por isso, a literatura clássica diz que “desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias [necessidades]”.

Ao contrário de abordagens capengas, a teoria do desenvolvimento sustentável minimiza a importância do homo-œconomicus, eixo de velhos conceitos, e envereda por dimensões que ultrapassam a economia, ficando raízes nos campos políticos, civis, cívicos e sociais. Nesta perspectiva, a realização do desenvolvimento sustentável requer a realização dos direitos do homem em todas as dimensões. Assim, a realização dos direitos culturais – uma das principais vertentes dos direitos sociais (aqueles cujo objetivo é garantir as condições materiais indispensáveis para o pleno gozo dos direitos) – é elemento essencial do desenvolvimento sustentável. Surge, então, o conceito de sustentabilidade cultural, que diz respeito a iniciativas associadas a valores essenciais para a preservação, desenvolvimento e formação cultural das sociedades futuras.

Por outro lado, tendo em vista o caráter multidimensional do conceito estruturado no tripé atividade econômica, meio ambiente e bem-estar, a promoção do desenvolvimento sustentável exige o comprometimento participativo de todos, estejam eles nas esferas pública ou privada. Surge, então, uma noção de responsabilidade associada ao desenvolvimento sustentável, que se projeta através do compromisso voluntário assumido por pessoas físicas ou jurídicas com a realização do tipo de desenvolvimento que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. E, assim, a exemplo, do próprio conceito, este tipo de responsabilidade, que pode levar até a um sentimento de obrigação de reparar o mal causado por gerações passadas, assume projeções de natureza econômica, ambiental, social e cultural, entre outras.
Nos dias correntes, se antecipando às obrigações que, cedo ou tarde, a realidade terminará por impor a todos, surge em Pernambuco um grupo animado por preocupações com a sustentabilidade e com a responsabilidade cultural.

Este grupo, ainda em fase incipiente, reúne líderes culturais, como o poeta Vital Corrêa de Araújo, presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), o jurista José Calazans Neto, presidente da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP), a escritora Esmeralda Camacho, do Gabinete Português de Leitura, o jornalista Carlos Cavalcante, presidente do Centro de Imprensa, e os produtores culturais Svetlana Romagna Valentim e Cristiano Lins de Amorim e, ainda, este que escreve o artigo. Animado por espontânea responsabilidade cultural, o Grupo se propõe a desenvolver projetos culturais sustentáveis, contribuindo para o aperfeiçoamento e difusão do conceito em todas os âmbitos de relacionamento, incluindo instituições dos diversos níveis e esferas de governo e da sociedade civil, com ênfase na classe média, tendo por público-alvo empresários, profissionais liberais, estudantes e formadores de opinião.

Sempre com os olhos postos na sustentabilidade cultural, o Grupo se dispõe a promover debates, seminários, colóquios, encontros e ações em geral para alicerçar, desenvolver e tornar claro e eficaz o conceito de Responsabilidade Cultural. Além disso, vai sugerir, elaborar, implementar e acompanhar projetos culturais, inclusive de intercâmbio, que contribuam para o desenvolvimento das culturas de Pernambuco e da região Nordeste.

Nestes tempos de comunicação ao vivo ou ‘on line’, como preferem alguns, a cultura local, regional e, mesmo, nacional está sob risco permanente, pois, mantido o caráter predatório, alienante e hegemônico que os caracteriza, os esquemas de difusão cultural exercem papel de dominação, representando perigo para as populações presentes, que correm o risco de experimentar precoce obsolescência cultural, e para as populações futuras, que correm o risco de desconhecer o passado que as produziu.

Texto publicado na Folha de Pernambuco.