A indústria automobilística em tempos de globalização

"parece que os governantes atuais não despertaram para a nova realidade imposta pela globalização ou, quem sabe, entendem que beneficiar as montadoras faz parte das suas tarefas"

Houve um tempo em que a instalação de uma montadora alterava o perfil econômico de uma região, consolidando uma opção industrial. Naquela época, a impossibilidade da importação das peças e componentes automotivos a custos razoáveis fazia germinar no seu entorno uma indústria de autopeças e, nessa perspectiva, sua presença exercia um efeito multiplicador de investimentos e de empregos, confirmando as teses de Keynes e Khan. Sua instalação representava um grande impulso para a economia da região. De fato, nos tempos de protecionismo e de nacionalismo econômico, as montadoras funcionavam como vigorosos pólos estruturadores do processo de crescimento econômico pois, através das suas encomendas ao mercado fornecedor de peças e componentes automotivos, seu viço e pujança transbordava para o restante da região. E, aos empregos e rendas geradas no seu interior, somavam-se aquelas que surgiam em sua decorrência no mercado fornecedor. A instalação de uma montadora garantia a absorção de um grande número de trabalhadores pois, além do empregos diretos gerados intra-muros, surgia um número bem maior gerado na rede de seus fornecedores. Não foi a toa que, em algumas regiões, a instalação de montadoras foi considerada o elemento básico do seu processo de crescimento econômico, justificando a simpatia de seus governantes e inveja dos demais. Da sua parte, sabedoras da sua importância econômica, as montadoras sempre souberam usar seus encantos para arrancar concessões públicas que variavam desde a oferta de financiamento farto e barato à renúncia fiscal, passando pela graciosa construção de infra-estrutura, doação de terrenos, etc. Houve, inclusive, quem afirmasse que as prendas exigidas pelas montadoras eram tão onerosas que seu atendimento anulava as vantagens da sua instalação. Vale destacar que as montadoras sempre consideraram as facilidades arrancadas do poder público como rendas subjacentes à sua atividade principal.

Os tempos mudaram. Nos dias que correm, não há mais a necessidade de um mercado fornecedor local para que uma montadora possa funcionar. A globalização dos mercados encarregou-se de desmontar o antigo conceito, tornando desnecessária a existência da indústria de autopeças local. Aliás, faz parte da essência do modelo global a constituição de grandes parques industriais (inclusive para a fabricação de peças e componentes automotivos), possibilitando a conquista da economia de escala necessária ao aumento da competitividade de cada centro produtor. Com o levantamento de certas barreiras alfandegárias, as montadoras puderam intensificar seus programas de redução dos custos, passando a comprar os insumos nos centros produtores mais convenientes. E, no embalo da globalização, as montadoras passaram a encaixar veículos internacionalizados, com tanque de combustível "made in Mexico", bomba injetora "made in Germany", tintas "made in Austria", buzina "made in Spain", etc. A nova realidade industrial imposta pelo modelo de globalização, avidamente abraçado pelos neoliberais de todo o mundo, alterou profundamente a antiga concepção dos parques industriais automobilísticos onde as montadoras e a indústria de autopeças conviviam numa relação simbiótica. Agora, com a inserção do país no mercado global, ao invés de conviver com uma indústria de autopeças surgida em seu entorno, a montadora administra um terminal de computador autorizando a importação de componentes automotivos produzidos em qualquer ponto do planeta.

Os tempos são outros, a concepção dos parques industriais automobilísticos é outra, mas os costumes são os mesmo. De um lado, diminuindo a importância do mercado fornecedor mundial em seus contatos com as autoridades locais, as montadoras continuam a exercer a prática dos chantagistas, exigindo concessões escorchantes para concordar em se instalar numa região. De outro, desconsiderando as mudanças decorrentes do modelo global, os governantes continuam a tratar a questão da mesma forma que seus antecessores. Parece que os governantes atuais não despertaram para a nova realidade imposta pela globalização ou, quem sabe, entendem que beneficiar as montadoras faz parte das suas tarefas.

Atualmente, esse tema ganha destaque pois, contando com a desinformação ou mesmice administrativa dos governantes (para não cogitar coisa pior), a Ford está patrocinando uma espécie de leilão para verificar quem lhe oferece mais em troca da instalação de uma montadora. As ofertas são vergonhosas. Ao que se sabe Pernambuco já ofereceu-lhe total isenção do ICMS por doze anos (inclusive da importação de equipamentos), doação de amplo terreno em área fartamente beneficiada com infra-estrutura, fornecimento especial de energia elétrica, apoio para obtenção de facilidades junto à SUDENE (como isenção do Imposto de Renda por dez anos e financiamento com recursos do FINOR). E, mesmo assim, a Ford faz charme. Provavelmente porque sabe que pode conseguir muito mais. Afinal de contas, a lista dos governantes desinformados e modistas é longa. Com a desistência do Rio Grande do Sul, além de Pernambuco, permanecem na disputa pela Ford a Bahia, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Que coisa, heim?

É tempo dos governantes brasileiros acordarem para o modelito global que ajudaram a implantar. Nem tudo que se justificava antes da abertura da economia permanece válido nos dias correntes. A doação dos recursos públicos às montadoras deve merecer maior atenção. Se, antes, nos tempos do protecionismo econômico, o alto custo das prendas exigidas pelas montadoras costumava anular as vantagens da sua instalação, agora, com o escancaramento da nossa economia, não tem a menor justificativa. O processo de crescimento econômico, no entanto, não pode ser obstaculado e, se há, como parece, disponibilidade de recursos e de créditos, o governo deve incentivar as atividades e os setores econômicos que, mesmo diante de um quadro de globalização, mantém sua pertinência econômica.

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