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Cloves Marques*
Há uma palavra no nosso idioma
que muito me encanta: obrigado. Ela deriva-se do latim: obligatio e
significa sujeitar-se, responsabilizar-se, dever. A gente não deve esquecer
de que se trata de uma postura voluntária. Uma resposta de satisfação a um
ato ou fato que nos gratifica. Um dia tive que viajar. Seu Toinho e dona Donzinha: como esses queridos e saudosos pais estariam orgulhosos e emocionados se me assistissem aqui! O mandamento deles era claro para os sete filho que tiveram: “Recursos não temos, mas duas coisas nós deixaremos para vocês: educação e estudo!” Foi assim que sai pelo mundo afora, servindo e sendo servido, aprendendo e tentando ensinar. Foi uma viagem pelo velho Rio São Francisco, no navio gaiola “Comendador Peixoto”, que me levou rio abaixo à cidade de Penedo, onde estive interno em um seminário religioso. Penedo borrifada de tradição e glória, a se espiar no espelho do Velho Chico. Dentre tantas coisas, estudar latim. E os registros do meu livro de vida iam silenciosamente sussurrando como um pêndulo pelo tempo a fora. Na prática eu aprendia que o homem deve ser simples, Deus deve ser amigo e a Natureza um pedaço da gente! Era o limiar do poeta: sensível e assentando o que sentia, a mostrar para a gente, por ótica distinta, coisas e loisas do cotidiano. Um dia, outras paragens. Descoberta da cidade de Garanhuns, que costurada com um fio de perfume de flores, abraça, misturando a alma de quem chega com a alma bailarina da cidade. Mais estudos e as lições do Pe. Adelmar da Mota Valença. Visões geométricas em sonhos pitagóricos: faço a demonstração de um teorema que é publicado em livro de Matemática do professor Osvaldo Sangiorgi. A glória e o incentivo para um menino de apenas 16 anos. Mas, sempre alimentando a simplicidade da vida, com um peito de amor, uma cabeça de liberdade e um coração de serviço, a fazer cumplicidade em caminhos semelhantes ou distintos, porém necessários. Depois, veio Recife da década de 60. Logo de chegada, contraste gritante, acoitado por suas águas de enchentes, nem sempre cristalinas. Prédios altos, finos, diferentes dos meus interiores, rompendo o céu. Palafitas baixas, sem estilo: a miséria atrevida preenchendo o inferno dos excluídos. Recife, hoje presente, que beija os olhos dos que lhe espiam, e uma alma de frevo que oferece acordes de bem-querer. Recife, um hálito de amor, calafrio de paixão incontida, alquimia que perfura a alma, transformando no amor da vida. Uma mulher, Tânia. Uma linda família: três filhos. E agora, o mais lindo neto: Pedrinho.
Veio a Engenharia, sem olvidar a
palavra literária. Depois, um novo e marcante encontro com as águas do
querido São Francisco, rio que me proporcionou água de batismo, água de
beber e águas de viagens. Agora, eram as águas de energia. Trabalhos na
CHESF, onde dediquei 25 anos de minha vida. O mais importante foi dedicar os
meus préstimos a um projeto coletivo de crescimento da nossa região
Nordeste, tendo como saldo maravilhoso a construção de belas amizades.
Pessoas de valor – algumas estão aqui – que me ensinaram a conviver.
Recife é tão marcante na minha
vida, que por bem-querer e bondade das pessoas me tornei imortal de algumas
entidades que lidam com as letras e as artes. Sabiam que ser imortal tem
ótimas vantagens? Quem me ensinou isso foi nosso filho Eduardo e assim
registrei: O homem é o limite dos seus pensamentos. Os passos no mundo, rápidos ou lentos, brincando com o vento de fazer agitados ventos. Ter amigos, ou mesmo indiferentes, mas sem inimigos, e nos caminhos do nós. Quando acontece a incapacidade de ir e vir, muitas jóias são retidas no silêncio das águas. Atuar aqui e ali, são pedras lapidadas na vitrina da vida. Não nos descuidemos de que, em cada momento, os mistérios são palpáveis. O homem é mais complexo do que seus secretos. No nosso caso, o poeta sempre assomando à vida, de amores pelos outros, pela palavra, pela lida. De pés descalços, espalha um cheiro surrado de saudade e um palpável desejo da música que ainda não se fez. De cabeça descoberta, libera o pensamento mais comum:
Até aqui, cheguei, chegando, (*) Cloves Marques é membro da Academia de Letra e Artes do Nordeste, da Academia Recifense de Letras e da Academia de Artes e Letras de Pernambuco
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