Cloves Marques

 


Palavras do homenageado

Cloves Marques*

Há uma palavra no nosso idioma que muito me encanta: obrigado. Ela deriva-se do latim: obligatio e significa sujeitar-se, responsabilizar-se, dever. A gente não deve esquecer de que se trata de uma postura voluntária. Uma resposta de satisfação a um ato ou fato que nos gratifica.

Tanto gosto de ouvir obrigado, como muito mais me cativa dizer muito obrigado! A mim, seduz falar: – Fulano ou fulana, estou a sua disposição! Conte comigo!

– Amigas, amigos, colegas, familiares, muito obrigado por estar aqui e minha gratidão pelas palavras pronunciadas. Vocês arregaçam as mangas comigo; vocês acenam esperança.

– Também, junto-me aos pernambucanos e pernambucanas das artes e das letras com palavras de gratidão a UBE/PE, nas pessoas de Vital Corrêa (idealizador desse programa), Alexandre Santos (incentivador da iniciativa) e Cássio Cavalcante, que tão bem coordena e mantém o programa.

- Obrigado, amiga Geninha, a dama do teatro pernambucano e, com muita honra, minha colega acadêmica, por essa belíssima recitação de meus poemas.

Ainda na emoção de tudo que nesta noite se disse a meu respeito, eu observo assustado: - Quantos outros nomes muito mais qualificados da cultura e da arte pernambucana poderiam estar aqui. Reconheço e agradeço o quanto o convite me honrou.

Mas, essas criaturas (Cássio, Lucilo, Ana e Lourdes) têm muita coragem. Chamam uma pessoa ... (não, velha, não!) ... que já passou dos 65 anos, para cutucar nas suas emoções, cascavilhando fatos e atos de vida. Claro, só coisa boa. Também, ousadia e atrevimento têm limites. Prevenido, eu trouxe um lenço para as eventuais lágrimas. Como é, contrataram médico de plantão para tão fortes emoções?

Tenho uma vida comum, uso e escrevo palavras comuns e não sou nenhum exemplo. Isso tudo me faz até lembrar o grande escritor argentino Ernesto Sabato, que certa vez ponderou: “Pergunto-me se mereço essa confiança, tenho graves defeitos.” E quando falo em defeitos, basta observar os personagens em que me transformo nos trabalhos que escrevo.

Falo assim, porém não tenho do que reclamar. Ao contrário, minha vida é povoada de bênçãos e realizações. Uma família que me engrandece; trabalho para o nosso sustento; espaço para os sonhos literários e um invejável séquito de amigos. Dessa forma revelo para vocês: mesmo que não tivesse escrito nenhum livro, sou escritor dessa minha gratificante vida.

Tudo começou em Delmiro Gouveia, cidade imagem da juventude. O trem passando no lamento do apito que explode, aspergindo fumaça de madeira, salpicando ruídos descontraídos de ferros rangentes. Um trem que levava esfomeado o que bem queria: “café com pão, bolacha não! café com pão, bolacha não!”. Essa imagem carrega um fardo de saudade, untado pela lágrima muda da partida.

Um dia tive que viajar. Seu Toinho e dona Donzinha: como esses queridos e saudosos pais estariam orgulhosos e emocionados se me assistissem aqui! O mandamento deles era claro para os sete filho que tiveram: “Recursos não temos, mas duas coisas nós deixaremos para vocês: educação e estudo!”

Foi assim que sai pelo mundo afora, servindo e sendo servido, aprendendo e tentando ensinar. Foi uma viagem pelo velho Rio São Francisco, no navio gaiola “Comendador Peixoto”, que me levou rio abaixo à cidade de Penedo, onde estive interno em um seminário religioso. Penedo borrifada de tradição e glória, a se espiar no espelho do Velho Chico. Dentre tantas coisas, estudar latim. E os registros do meu livro de vida iam silenciosamente sussurrando como um pêndulo pelo tempo a fora. Na prática eu aprendia que o homem deve ser simples, Deus deve ser amigo e a Natureza um pedaço da gente!

Era o limiar do poeta: sensível e assentando o que sentia, a mostrar para a gente, por ótica distinta, coisas e loisas do cotidiano. Um dia, outras paragens. Descoberta da cidade de Garanhuns, que costurada com um fio de perfume de flores, abraça, misturando a alma de quem chega com a alma bailarina da cidade. Mais estudos e as lições do Pe. Adelmar da Mota Valença. Visões geométricas em sonhos pitagóricos: faço a demonstração de um teorema que é publicado em livro de Matemática do professor Osvaldo Sangiorgi. A glória e o incentivo para um menino de apenas 16 anos. Mas, sempre alimentando a simplicidade da vida, com um peito de amor, uma cabeça de liberdade e um coração de serviço, a fazer cumplicidade em caminhos semelhantes ou distintos, porém necessários.

Depois, veio Recife da década de 60. Logo de chegada, contraste gritante, acoitado por suas águas de enchentes, nem sempre cristalinas. Prédios altos, finos, diferentes dos meus interiores, rompendo o céu. Palafitas baixas, sem estilo: a miséria atrevida preenchendo o inferno dos excluídos. Recife, hoje presente, que beija os olhos dos que lhe espiam, e uma alma de frevo que oferece acordes de bem-querer. Recife, um hálito de amor, calafrio de paixão incontida, alquimia que perfura a alma, transformando no amor da vida. Uma mulher, Tânia. Uma linda família: três filhos. E agora, o mais lindo neto: Pedrinho.

Veio a Engenharia, sem olvidar a palavra literária. Depois, um novo e marcante encontro com as águas do querido São Francisco, rio que me proporcionou água de batismo, água de beber e águas de viagens. Agora, eram as águas de energia. Trabalhos na CHESF, onde dediquei 25 anos de minha vida. O mais importante foi dedicar os meus préstimos a um projeto coletivo de crescimento da nossa região Nordeste, tendo como saldo maravilhoso a construção de belas amizades. Pessoas de valor – algumas estão aqui – que me ensinaram a conviver.
Em momento algum esqueci ou desprezei a palavra literária. Livros escritos e lançados. Idéias de apoio à cultura e a intelectuais, através do notável potencial desenvolvimentista da CHESF.

Recife é tão marcante na minha vida, que por bem-querer e bondade das pessoas me tornei imortal de algumas entidades que lidam com as letras e as artes. Sabiam que ser imortal tem ótimas vantagens? Quem me ensinou isso foi nosso filho Eduardo e assim registrei:
Era meados do verão de 1991 e, em sua residência, o nosso amigo Ariano Suassuna – tendo Zélia ao seu lado – concedia-nos uma rica noite de causos, como só sabe contar. Falou sobre a morte do estudante Demócrito de Souza Filho. Contou as circunstâncias do seu primeiro encontro com Eduardo Galeano, numa noite de chuva – início da ditadura de 64. E de tantas outras coisas.

Tânia Marques, participativa, observando os cochilos de Eduardinho, com apenas nove anos, disse:

– Filhinho, durma não. A gente está na casa do imortal que escreveu o AUTO DA COMPADECIDA.

De pronto, respondeu:

– Deixe eu dormir, mamãe. Se ele é imortal eu tenho a vida toda para escutar ...

Assim aprendi como é bom ser imortal!

O homem é o limite dos seus pensamentos. Os passos no mundo, rápidos ou lentos, brincando com o vento de fazer agitados ventos. Ter amigos, ou mesmo indiferentes, mas sem inimigos, e nos caminhos do nós. Quando acontece a incapacidade de ir e vir, muitas jóias são retidas no silêncio das águas. Atuar aqui e ali, são pedras lapidadas na vitrina da vida. Não nos descuidemos de que, em cada momento, os mistérios são palpáveis. O homem é mais complexo do que seus secretos. No nosso caso, o poeta sempre assomando à vida, de amores pelos outros, pela palavra, pela lida.

De pés descalços, espalha um cheiro surrado de saudade e um palpável desejo da música que ainda não se fez. De cabeça descoberta, libera o pensamento mais comum:

Até aqui, cheguei, chegando,
fazendo versos, versejando,
poeta igual a qualquer um.


Muito obrigado!
 

                                                                                                                                  (*) Cloves Marques é membro da Academia de Letra e Artes do Nordeste, da Academia Recifense de Letras e da Academia de Artes e Letras de Pernambuco