COLONIALISMO CULTURAL INTERNO

Waldênio Porto*

Sim, eu acredito.
Mas urge agora que o passado acabe
e o País declare
no Mapa destes dias
que o Nordeste existe.

Sim. Eu acredito, e apenas quero
que a vida simplesmente continue
sem que o homem
apenas por nascer aqui receba
certidão de exílio em seu país.

Poema de Audálio Alves, no livro “O Dia Amanhece em “Minhas Mãos” - 1987

Não teria sentido este conclave, que engloba o XXIV Congresso Nacional da SOBRAMES e o VIII Congresso Internacional da UMEAL, se não abordássemos um tema da mais alta relevância para a literatura brasileira e lusófona. Se não o fizéssemos negaríamos todo o nosso esforço passado na defesa das raízes ibéricas, fincadas principalmente no Nordeste. Que estão sendo questionadas e sofrem ameaças. É a hora e o momento de elevarmos a nossa voz e exigirmos a sua preservação. Invocamos a tradição emotiva transplantada de Portugal, épica, medieval, barroca e romanesca. Que modela o arquétipo da nossa personalidade literária, e que vem encontrando, estranhamente, tropeços de toda ordem dentro do nosso próprio país. É a hora de reclamar e exigir correção desta atitude malsã.

O patrimônio cultural do Nordeste tem de ser conservado e mantido no contexto nacional brasileiro. Não pode ser ignorado e, muito menos, descartado.

Patrimônio tem duas raízes etimológicas: grega e latina. “Moneo”, que vem a ser “aquele que recorda” , e “pater-is” , alude ao pai, ao início. Patrimônio é literalmente “o que recorda o pai”, a origem, a gênese. Patrimônio cultural é a História, e abarca todos os fatos, os costumes, o sentir e as emoções de um determinado grupo de indivíduos em determinado lugar. E se expressa através da literatura, fica, permanece, refunde-se e se cristaliza. Atravessa os séculos e preserva os poetas, os homens de gênio daquele povo.

Por isso somos tão obstinados em preservar o patrimônio cultural da Pátria Nordestina, a sua identidade, para que não se descaminhe nas veredas da noite dos tempos, e desapareça, como aconteceu com o Provençal.

Assistimos desde longo tempo, a um desmonte perverso, programado e persistente da cultura nordestina. Dentre as discriminações (hoje tão combatidas e mesmo configuradas como ilícitos penais), está a contra o nordestino em si, existente no sul do país. Não há como negar.

Nós somos o risível, o grotesco, um trambolho incômodo, o pedaço perfeitamente dispensável deste país. Procura-se sufocar, econômica e culturalmente, o nosso povo. As notícias veiculadas pela televisão são sempre depreciativas. Ainda inventam um jeito caricato de falar do povo nordestino, fala inexistente, que desperta risos, como palhaço em picadeiro de circo.

Choca-nos e nos revolta a onda de homicídios, inclusive pregados pela internet, de mendigos, nordestinos, negros, homossexuais e índios, como se não fossem brasileiros, nascidos nesta mesma terra mulata, miscigenada, de mestiços, graças a Deus, e conhecida como a da tolerância racial. Este inaceitável preconceito precisa ser contestado e abolido, pois não prospera uma nação dividida.

Um povo vale pelo que pensa. Mas o pensar da inteligência nordestina não tem divulgação ou chega ao leitor. Escreve-se muito e se publica bastante em todos os Estados do Nordeste. Só em Pernambuco, no Recife, mais de trezentos títulos novos são editados por ano. O equivalente acontece em São Luís, Fortaleza, Teresina, Natal, João Pessoa, Maceió e Salvador. Os livros, custeados pelos próprios autores, têm a sua venda entretanto limitada quase que à noite de autógrafos. Depois ficam encalhados, amontoados nos cantos. Porque não têm acesso à mídia nem às redes de distribuição, sediadas no Sudeste do país. Sem o amparo da Lei Rouanet, que subsidia preferencialmente as organizações culturais paulistas, em escala escandalosa. Em 2007 a Fundação Padre Anchieta abocanhou R 11,8 milhões, a Osesp R $ 8,6 milhões e a Pinacoteca de São Paulo R $ 8,5 milhões, superiores às dotações destinadas aos Estados. Por isso não sobra dinheiro para os nordestinos, os nortistas, os do centro-oeste e o sul. A Lei Rouanet é extremamente concentradora. É bom lembrar e não esquecer que somos uma república federativa, em que deveria haver uma eqüidade entre seus membros.

Se por um lado o escritor nordestino não tem vez, as livrarias da região estão entulhadas com tudo que se publica no Rio e São Paulo, preste ou não. Sem falar nos “best-sellers”, enlatados, por vez, de qualidade duvidosa, que nada têm a ver com a nossa cultura, e refletem outra realidade. Mas viciam e deformam o gosto do leitor, assim como abafam, tornam desconhecida a nossa literatura. Só se ama e valoriza o que se conhece. A cavilosa lista “dos 10 livros mais vendidos”, publicada com destaque cada semana, alicia o leitor, em detrimento de muito autor bom nordestino excluído da seleção.

Livrarias chegam de fora do Nordeste, para pegar fatias crescentes do nosso mercado em expansão . Aí, nesta nossa terra e neste nosso chão, pasmem todos, rejeitam e se negam a vender o livro do escritor nordestino, como a Siciliano e a Sodiler. É como se sentir estrangeiro em seu próprio terreiro, senhores médicos-escritores congressistas. Este absurdo intolerável precisa ser combatido e não pode ser mais aceito. Só os escritores locais que conseguem publicar através das editoras do Sudeste, escapam desta vergonhosa sujeição. Os outros têm de entregar alguns exemplares para, enviados ao Rio e São Paulo, serem “avaliados” e refugados. Puro colonialismo cultural. Nós temos de ouvir a metrópole, que tripudia sobre os nossos valores e a nossa cultura.

Esta é a nossa realidade, que extrapola o Nordeste e se espraia por todas as regiões do Brasil. Precisamos dizer que não aceitamos este “status quo”, injusto e degradante. Os nossos brios estão feridos.

Por isso mesmo a Academia Pernambucana de Letras tomou a iniciativa de realizar um Congresso das Academias de Letras da região, e criar a Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste, juntamente com a SOBRAMES REGIONAL, a UBE, o Movimento em Defesa do Livro e do Escritor Nordestino, a Academia de Letras do Nordeste. Esta coalizão cultural muito forte tem como objetivo e temática a defesa do livro e do escritor do Nordeste, a manutenção de nossa identidade cultural, criar e fazer funcionar, de maneira objetiva e urgente, uma rede de distribuição de livros regional. Somos, portanto, uma grande força arregimentada. A SOBRAMES, uma das mais sólidas e respeitáveis instituições culturais de Pernambuco, está engajada neste movimento, com a força e determinação que lhe são peculiares. Porque o nosso povo não aceita tutelas nem se deixa nulificar pela esterilização e expurgo da sua própria cultura.
Não é de vós, entretanto, ilustrados médicos-escritores dos estados do Rio e de São Paulo, da SOBRAMES, que estamos a reclamar e questionar. Mesmo porque não tendes gerência ou ingerência, nem sois os responsáveis pela reedição do verdadeiro “INDEX LIBRORUM PROIBITORUM” , o índex dos livros proibidos da Inquisição, agora atualizado, com apuro e sofisticação no Brasil, pelas editoras do Sudeste, que impedem a distribuição dos nossos livros e tentam esconder o brilho das nossas letras.

Ainda as editoras referidas têm a desfaçatez de exigir uma depuração do texto e suprimir os “regionalismos”, alterando a nossa maneira de escrever, uniformizando a língua segundo critérios próprios, obrigando que se fale o “paulistanês”. Isto é colonialismo cultural interno. Isto é uma reedição do “Índex dos Livros Proibidos”, melhorada e ampliada, acrescida do verbete “das palavras proibidas”, dos regionalismos.

Um verdadeiro aparato tenta abafar as literaturas regionais. Temos certeza de que saireis daqui, congressistas, dispostos a engrossar o movimento desencadeado pela Academia Pernambucana de Letras, e pela Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste, composta pelas Academias de Letras do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, e da SOBRAMES NORDESTINA. E este Congresso da UMEAL e da SOBRAMES é o foro adequado, o lugar, o momento para manifestarmos o nosso indignado repúdio e protesto. Chamarmos a atenção para o problema e partirmos para soluções. Que este Congresso não seja uma vilegiatura sem conseqüências, mas apresente resultados positivos. Para que todos os cantos deste país, ignorados e vilipendiados pela mídia, se insurjam e encontrem lugar ao sol da rica cultura brasileira, porque ela é diversa e multiforme, somatório dos regionalismos que fazem a nossa grandeza.

Somos responsáveis e corresponsáveis pela feição do futuro desta Nação. Um rosto firme, resoluto, de quem sabe a que veio e para onde vai. Não iremos nos nulificar, perdidos na poeira do tempo, como povo que não soube permanecer. É hora de deixar a comodidade do silêncio e acordar a Nação. Porque nascemos para a grandeza, não para a subserviência.
Não se cultiva a diversidade como riqueza nacional brasileira. Procura-se, ao contrário, impor um padrão monopolista, que ignora a geografia histórica e as peculiaridades do nosso povo.
A persistência desta deformação cultural, preconceituosa e excludente da nossa região e das outras regiões, está levando a um verdadeiro cisma da Nação Brasileira. Principalmente neste momento de maior crescimento nosso, quando a economia de Pernambuco e do Nordeste, durante dez anos seguidos, se desenvolve mais que o restante do país. Equivale às cifras da China e chega ao dobro do crescimento nacional. Transcrevemos da “Folha de São Paulo” , secção Mercado, de 09 de agosto de 2012, a notícia: “ a economia do Nordeste cresce a passos largos. O PIB de Pernambuco teve crescimento superior ao do Brasil no primeiro trimestre de 2012. Enquanto Pernambuco cresceu 4,6 %, o país teve alta de 0,28 % “.

As grandes editoras, os maiores jornais do país estão situados no eixo Rio-São Paulo. Que só editam, publicam, e comercializam os seus escritores. Ignoram o restante dos Estados. As grandes redes de distribuição de livros igualmente favorecem os escritores do Sudeste. Os autores das outras regiões ficam impedidos de terem distribuição nacional e permanecem limitados às suas comunidades. Só se lê o que Rio e São Paulo programam, desejam e querem. Esta situação já deu lugar ao surgimento do Movimento em Defesa do Livro e Escritor Nordestino, às Leis do Livro, municipais e estaduais, que obrigam as livrarias a exibirem e comercializarem os livros dos escritores locais. Há uma inquietação cultural que se reflete necessariamente no público leitor, que está conosco. Cabe-nos comunicar, neste congresso, que a UBE, através do jornal “A Voz do Escritor”, publicado semanalmente através da internet, fechou as sucursais da Siciliano e Sodiler, no Recife, que se negavam a expor nas suas vitrinas os livros nordestinos. Isto é um fato relevante, que mostra uma insatisfação crescente.

Mais que as destruições dos livros, ocorridas nos regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo, o comunismo, está o fato de impedir que o livro nordestino chegue ao leitor, como fazem, usando vários meios, as grandes distribuidoras do Sudeste. Os livros das regiões fora do eixo Rio-São Paulo não se divulgam, não se comercializam, se ignoram, e caem no esquecimento, como se nunca estivessem existido.

Instala-se o colonialismo cultural, a mais perversa e implacável nulificação de um povo. Deprecia-se a prata de casa. A autoestima é para ser anulada, enquanto cresce e se exalta a cultura de outra região, a cultura do Sudeste. Um livro é comercialmente inviabilizado, com a intenção de aniquilar o patrimônio de uma cultura inteira. Tentam voltar ao tempo antigo, no qual era melhor o de fora. Retornar à velha história do reino. Farinha do reino, queijo do reino, manteiga do reino. Mas, agora, o reino está dentro de nós. Não adianta teimar.

Não se venha falar de xenofobia quando estamos a um passo da descaracterização, pela insistência em desmontar a nossa maneira de ser e existir, os nossos valores psicossociais e todo o valioso acervo histórico e patrimônio nordestinos. Apesar disso, os escritores de qualquer origem, continuam a ser bem-vindos no Nordeste. Porque somos uma variedade de povos, com identidades próprias, agrupados sob a mesma bandeira.

Repetimos, há um cisma, cultural e amativo, cuja gravidade vem crescendo nos últimos tempos.

No “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, nos deparamos com a abominável determinação de refazer a História, de acordo com critérios próprios. Para complementar, a História era oficialmente recontada, e um mundo virtual assumia a condição do verdadeiro.

Se o Brasil, como país, é impedido de tomar conhecimento das culturas regionais, ficará desfigurado, mais pobre na medida em que ignora a riqueza expressional múltipla das várias regiões. Então só restará a manifestação estereotipada do Sudeste, que é muito pouco e que não representa a força de um país continental.

Stalin foi useiro e vezeiro em copiar estas idéias de supressão e apagamento da memória coletiva e individual. Que o digam os dissidentes dos “Gulags”, onde o mundo se borrava e a realidade se desfazia.

Ouço ainda as palavras cínicas de Goebbels, Ministro da Propaganda do III Reich: “uma mentira repetida torna-se uma verdade insofismável”. Negar as culturas e os regionalismos das várias partes do Brasil é um crime. Negar o pensamento e a criatividade do povo, espalhado neste vasto país, equivale a mentir a nacionalidade. Tratar os outros Estados como meros coadjuvantes, tolerados apenas porque constituem uma reserva de mercado conveniente, é uma lástima.

Sim. Eu acredito.
Mas urge agora que o passado acabe
e o País declare
no Mapa destes dias
que o Nordeste existe.

Sim. Eu acredito, e apenas quero
que a vida simplesmente continue
sem que o homem
apenas por nasceraqui receba
certidão de exílio em seu país.

 

Waldenio Porto
Ex-Presidente da Academia Pernambucana de Letras
Presidente da Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste
Presidente da UMEAL – União Internacional de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos
 

Conferência proferida em 12 de outubro de 2012, no VIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA UNIÃO DE MÉDICOS ESCRITORES E ARTISTAS LUSÓFONOS e XXIV CONGRESSO DA SOBRAMES, na cidade de Curitiba, no Estado do Paraná.