Discurso de transmissão de cargo na ALANE

Ana Maria César*


Uma academia de letras é espaço e tempo. Como espaço, é horizontal no sentido de companheirismo, no compactuar emoções líricas e lúdicas da leitura, da escrita, da pintura, da música; é vertical na sua universalidade, espaço que preenchemos ao criar cultura, ao nos imortalizarmos em livros e quadros e músicas. O tempo corre paralelo. Nos três segundos que dura o presente, o pensar se faz palavra, som, traço. O passado serve de referência, onde mergulhamos para buscar o entendimento, a motivação. E futuro é onde nos lançamos, imortais que somos através de nossas obras. Portanto, aqui e agora, no tempo presente, neste espaço do Centro Cultural Correios, somos uma academia de letras e artes em sua idade adulta, ao completar 34 anos de fundação.

A Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, a quem chamamos com muito carinho simplesmente Alane, está em mais um dia de festa. Fundada em 27 de janeiro de 1978, com o objetivo de promover o desenvolvimento e a preservação dos valores culturais da região Nordeste, já instalou núcleos no Rio Grande do Norte, em Alagoas, Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe, criando, assim, imenso entrelaçamento que cobre a região mais autenticamente brasileira. E os contatos continuam. Em outubro passado, participamos da Bienal do Livro de Alagoas, a convite da presidente Selma Teixeira Brito, para palestras e lançamento de livros.

Durante os últimos dois anos, vivemos a realidade e o sonho de uma entidade. Na dimensão real, tivemos a reforma do Estatuto Social para nos enquadrar às normas da Lei nº 10.406/2002 do Código Civil Brasileiro. No plano da visão utópica, nos reunimos mensalmente, ora em residência dos acadêmicos, ora nos jardins da UBE ou da Academia Pernambucana de Letras - à feição dos discípulos de Platão no jardim de Academus - vivenciando sentimento fraterno alicerçado em interesses comuns... a arte, o belo, o musical. E, sobretudo, publicamos mais um número da nossa revista.

A revista Letras e Artes tem sido, nesses 34 anos de atividades da Alane, um marco de integração de escritores, poetas, artistas plásticos, musicistas, não só de Pernambuco e do Nordeste, mas da América Latina e dos países lusófonos. Em suas páginas, textos de acadêmicos efetivos, honorários e correspondentes.

O n° 19, que ora entregamos a público, pretende inicialmente homenagear o Museu de Arte Contemporânea–MAC e sua dinâmica diretora, Célia Labanca, pelo retorno do quadro O Enterro, de Cândido Portinari, roubado no dia 14 de julho de 2010 e recuperado em 31 de agosto. No dia 21 de setembro, a Alane realizou Sessão de Regozijo na sala dedicada ao pintor, revestida de poemas alusivas ao fato – lidos na ocasião - e releitura da obra por nossos artistas plásticos.

Esse foi um dos momentos mais extraordinários que a Alane viveu, num ambiente sagrado para a nossa cultura, entre paredes centenárias e obras de arte das mais diversas procedências. Era como se tivéssemos mergulhado numa dimensão mágica, atravessado o tempo e nos colocando ao lado de Portinari enquanto ele usava as tintas para reproduzir nossa realidade, nossas dores e nossas lutas. A emoção e a alegria eram tão fortes que reverberavam nas paredes e acredito, ainda permaneçam lá.

A revista traz também bloco de Ensaios, onde a opinião dos nossos cultores do pensamento se faz presente, com apreciações e análises do nosso tempo.

Os Discursos de Posse de nossos acadêmicos representam a memória da Academia, aquela que imortalizará patronos e titulares das cadeiras.

Temos por norma instituir o Ano Literário, homenageando os decanos da nossa instituição. Neste ano, escolhidos foram o poeta Nicolino Limongi e o escritor Jarbas Maranhão, pela passagem do nonagésimo aniversário de nascimento de ambos.

A dinâmica da vida, se por um lado nos traz novos companheiros, também os leva. E assim resta a saudade. Para que a lembrança deles não esmaeça, nem sua passagem pela nossa Academia seja desconhecida dos pósteros, registramos a nossa Homenagem plangente e imorredoura aos companheiros Everaldo Moreira Véras e Francisco Bandeira de Mello.

Junto à revista Letras e Artes, estamos também entregando a Agenda 2012, trabalho idealizado pelo companheiro Cloves Marque, e que já se tornou tradição para todos nós. Nela, foram homenageados os presidentes de ontem, de hoje e de sempre. Por cortesia da Gráfica FacForme, do nosso Associado Benemérito Francisco de Assis Nunes, será distribuída com a revista.

Neste 27 de janeiro de 2012, após três mandatos na presidência – 1998/1999; 2000/2001; 2010/2011, tendo exercido ainda os cargos de vice-presidente, 1ª Secretária, 2ª Secretária, além de coordenar o Conselho Editorial desde a reativação da revista - passo o comando ao escritor, poeta e artista plástico Melchiades Montenegro Filho que, junto a uma diretoria formada por nomes os mais representativos da nossa cultura, dará continuidade ao nosso trabalho. Trabalho que foi realizado com a dedicação dos companheiros que comigo formaram a presente diretoria, a quem agradeço do mais profundo do coração: Olímpio Bonald Neto, Carlos Severiano Cavalcanti, Cloves Marques, Edna Alcântara, Valderez de Freitas Leite, Luiz Gonzaga Lopes, Rosa Lia Dinelli, e tantos outros que nos ajudaram a manter a nossa Academia ativa e profícua.

Em nome da Alane, quero também registrar meus agradecimentos ao Centro Cultural Correios, à Sra. Maria Lúcia Moura da Costa, que gentilmente nos cedeu este espaço, e a sua prestimosa equipe que contribuiu para o brilhantismo desta comemoração.

Todos nós estamos de parabéns: os que integram a Alane, os que se confraternizam conosco neste momento e, também, aqueles que, em lugares os mais distantes, deleitar-se-ão com os poemas, as crônicas, as artes plásticas da nossa revista, esquecendo por alguns momentos as dificuldades do dia a dia, o estresse da vida moderna.
Termino minha alocução com as mesmas palavras que proferi quando assumi a presidência há dois anos. E o faço ao observar que, se naquele momento este sentimento já existia, hoje é muito mais verdadeiro.

Tanto vivi a Alane e a ela me votei que de repente percebo não ser eu a integrar os seus quadros, ela é que integra minha vida, que me faz levantar cada dia, que ocupa meu derradeiro pensamento antes de adormecer, que me aponta o norte e o sul, que justifica a luta cotidiana. A Alane sou eu e todos nós na contínua busca de uma dimensão onde a arte se derrama como ideal de vida.

Muito obrigada.

 

Ana Maria César presidiu a Academia de Letras e Artes do Nordeste por três mandatos

Discurso pronunciado pela presidente Ana Maria César no Centro Cultural Correios, no dia 27 de janeiro de 2012, por ocasião das comemorações dos 34 anos da Alane, lançamento do número 19 da revista Letras e Artes e posse da diretoria para o biênio 2012 / 2013).