Sobre o livro 'Maldição e fé', de Alexandre Santos

Salete Rego Barros*

 


Maldição e fé é um livro do gênero ficção, baseado em fatos reais ocorridos em Pernambuco em meados do século XVII.

O enredo se propõe a investigar as causas que teriam levado à misteriosa conservação da única casa (vizinha à igreja da Misericórdia) que escapou ilesa do incêndio, ateado pelos holandeses e que destruiu a vila de Olinda, em 24 de novembro de 1631, uma desgraça prevista com antecedência de vários anos por membros do clero possuídos pelo demônio em ocasiões que envolviam a prática do exorcismo e, treze anos antes, durante a celebração da missa de instalação do Tribunal do Santo Ofício na então vila de Olinda. O objetivo aparente do incêndio era o extermínio do pecado daquela localidade, através da interferência do demônio do fogo e da guerra.

Ao mesmo tempo em que o autor levanta questionamentos sobre a história oficial do país e a chamada “Santa Inquisição”, através da narrativa da visitação do Santo Ofício ou equipe precursora da invasão holandesa no Nordeste do Brasil, à vila de Olinda, um dos maiores centros de perdição no novo mundo, ele, ainda, instiga o leitor a pensar sobre a atitude dos delegados da Igreja Católica designados para fazer a instalação do Tribunal que, agindo em nome de Deus, submetiam à prisão com tortura física e psicológica, pagamento de multas, degredo, flagelação pública, morte na fogueira entre outros, os que não delatavam os hereges ou confessavam seus crimes durante os primeiros trinta dias, chamados “período das graças”, após a chegada do inquisidor à Terra Brasilis.

Como pode ser observado, trata-se de um livro polêmico, visto que põe em xeque valores cultivados durante séculos, nunca antes questionados pelos crédulos, mas que, a partir de sua leitura, podem vir à tona reflexões acerca da manipulação dos poderes constituídos e seus objetivos obscuros, que, na época, envolviam a vigilância das terras mais prósperas da colônia, sobretudo as capitanias da Bahia e de Pernambuco, a manutenção e expansão da fé católica com a perseguição aos cristãos-novos, servindo, a Inquisição, de instrumento de política colonial travestida no combate aos crimes contra a fé (sincretismos e práticas judaizantes) e contra a moral (sodomia e práticas homossexuais).

As 374 páginas do livro estão divididas em 9 partes com 40 capítulos, além de Prólogo, Prefácio e Introdução (partes pré-textuais); Guia de Leitura com a descrição dos principais personagens, dos vultos históricos, dos demônios citados e dos principais locais onde a trama se desenrola) e Referências Bibliográficas (partes pós-textuais).

Maldição e Fé é um livro com potencial para ser um best seller - apreciado ou detestado. Tudo vai depender da forma como o leitor vai se posicionar perante fatos que não podem ser negados, mas que podem causar o impacto da literatura fantástica nos mais conservadores.

 

Crítica sobre o livro 'Maldição e fé' apresentada em 08 de abril de 2011, por ocasião da estréia do programa Clube do Livro, na Casa Rosada da Rua Santana, sede da UBE.

Salete Rego Barros é escritora, editora e dirigente da UBE-PE