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A SIMBIOSE DA ARTE NA
POESIA CLÁSSICA E POPULAR
Carlos Cavalcanti*
A mente humana ainda é um
universo bastante desconhecido. O aprendizado, em geral, traz informações
preciosas que se acumulam através da orquestração dos ensinamentos. As
pessoas, de uma forma ou de outra, conseguem amealhar conhecimentos e
saberes.
O pendor para as artes, este sim, vem do berço. É evidente que o estudo abre
grandes caminhos, aprimora, educa ou tolhe. Entretanto, quem nasceu para a
medicina nem sempre se sentirá realizado ante a imposição de lidar com
matemática, engenharia ou outra tarefa que não aquela de sua vocação maior.
(Isso não impede que a pessoa tenha mais de uma vocação)
Sabemos que o homem se amolda a várias circunstâncias, às vezes pela
necessidade de sobrevivência, embora, nunca se desvencilhe dos seus sonhos
primordiais, da sua idealização de vida, daquilo escrito em letras douradas
nas primeiras visões de mundo.
A escola ensina, todos aprendem muito ou pouco, os que têm vocação se
sobressaem quando o conteúdo lecionado se coaduna com os seus dons e seus
anseios.
Há, também, os geniais poetas clássicos e os repentistas.
(Citados aqui apenas alguns nordestinos, já falecidos):
Manuel Bandeira; Jansen Filho; Zé da Luz; Rogaciano Leite; Patativa do
Assaré; Carlos Pena Filho; Pinto do Monteiro; Waldemar Lopes; Os Irmãos
Batista; Edmir Domingues e Augusto dos Anjos, este, o maior poeta do Século
20, imortalizado na literatura brasileira pela genialidade do seu único
livro “EU e Outras Poesias”.
Os violeiros do Nordeste, mesmo sem anéis nos dedos, de cursos superiores,
fazem verdadeiras obras de arte: improvisam, escrevem e cantam tudo inserto
nos cânones da metrificação universal como preceitua o processo poético. A
obra de Patativa do Assaré foi aprovada na Sorbone. Oliveira de Panelas,
grande poeta e cantador pernambucano, é pelo que eu sei o único violeiro
acadêmico do Brasil (faz parte da Academia de Letras e Artes do Nordeste –
ALANE, da Paraíba). São luminares premiados pelas luzes transcendentais da
criatividade. A centenária herança africana, juntamente com a sabedoria
espanhola, deram aos cantadores e violeiros o instrumento precioso para o
fazer poético da cantoria e da peleja.
A poesia clássica tem seu lugar de honra no pedestal da História. A poesia
popular, especialmente a nordestina faz, através da viola, a História
sacrossanta do improviso e do baião, onde o Ceará, o Rio Grande do Norte, a
Paraíba e Pernambuco transformam-se no berço inesgotável da inspiração
abençoada. A Serra do Teixeira chora lágrimas dulçorosas na formação do Rio
Pajeú para fertilizar as mentes privilegiadas dos seus grandes menestréis.
Será que esses vates citados seriam melhores na sua profissão se tivessem
recebido ensinamentos e titulações superiores? - Ainda não conheço faculdade
para formação de poetas.
A fonte caudalosa da poesia encontra privilegiadas vocações para instalar a
sua prole. São vários os realmente destacados para esses instintivos dons. O
estalo da inspiração é bastante intuitivo. A mente vocacional acumula as
mensagens e aos poucos as expele transvestidas de poesia. O nascimento, em
forma de poema, pode ocorrer a qualquer instante. A prenhez mental é
pródiga. Não adianta pressioná-la antes do tempo. As contrações do intelecto
são repetitivas. O verso tem o seu próprio estágio de maturação. Quando
prematuro, por forças exógenas, o rebento quase sempre é mutilado. O
nascimento a fórceps geralmente é pouco recomendável. O melhor é esperar a
gestação completa e deixar que o filho nasça de parto normal. Assim, o poema
chega ao mundo em perfeita compleição: inteiro, robusto, sedutor. O poeta,
ao fim de tudo, sente o alívio natural da expulsão instintiva dos versos do
seu imaginário.
Há muitas formas de poesias. Algumas livres, descomprometidas, esvoaçantes.
Outras, calculadas, medidas, comparadas e de forma fixa.
Em qualquer labor poético predomina a busca da beleza. A imagética
prepara-se caprichosamente para entornar-se na roupagem deslumbrante da
metáfora. O ritmo entra na receita como canção de ninar embalado pelas
cachoeiras de rimas trazendo compasso e musicalidade.
Nos versos clássicos, geralmente, há esse aspecto cadenciado: a metrificação
específica faz “pas-des-deux” com a elisão buscando a musicalidade e
incentivando a ginga rímica da boa poesia.
O poema bem elaborado semelha-se ao “Bolero de Ravel”, começa lentamente e
vai crescendo, tanto na entonação quanto na ênfase sonora.
A poesia, quando bem feita, tem um guarda-roupa variado e encantador. O seu
aspecto é caleidoscopicamente mutante. A força da palavra predomina no
poema, a poesia é a feição conotativa do seu conteúdo. O impacto musical das
rimas responde pela amplitude da emoção sentida. As elisões se confrontam
com as cesuras e o encadeamento segue firme. A sensibilidade poética é um
dom divino, não permite explicações. A chegada do poema não respeita horário
preestabelecido. Não permite o domínio do sono. Não admite passar
despercebidamente. Qualquer descuido significa a partida sem volta da
inspiração. A poesia, esta sim, espera o terreno fértil e irrigado do poema
para que se instale com sua brilhatura e exiba a sua beleza, chegando ao
papel ou à eletrônica. O poeta, ante a leveza da mente, reserva de imediato,
aquele espaço no disco rijo do cérebro para receber a próxima gestação.
Enquanto Pinto do Monteiro diz em redondilha maior esse poema em sete pés:
O gado bravo descia
do Olho d’água do Cunha.
E vinha pé ante pé
pisando a ponta da unha.
Vinha beber, não bebia,
quando notava que havia
vaqueiro por testemunha.
Eu digo numa trova, também em redondilha maior:
A serra que serra a mata,
a serra que mata a serra,
encerra o som da cascata
e mata a vida na terra.
Estes dois poemas diferem apenas na contagem de pés, ou linhas, mas a
linguagem é a mesma, escorreita, coloquial, fluente.
Fazendo um ligeiro paralelo entre a poesia clássica e a popular aproveito a
mesma técnica de galope à beira-mar, com tonicidades na 2ª, 5ª, 8ª e 11ª
sílabas poéticas, para exemplificar os dois labores: no falar
regional/campesino e em linguagem clássica. O primeiro extraído do poema
POETA DA ROÇA de Patativa do Assaré e o segundo do poema ANTES DA ALVORADA
do livro A Gênese do Tempo, de minha autoria.
Diz Patativa:
“Sou fio das mata, cantô de mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio,
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mio.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre
E o fio do pobre não pode estudá.
Eu canto o vaquêro vestido de coro,
Brigando com o toro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.
Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home
E tomba de fome, sem casa e sem pão.
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte”
Vejamos agora algumas estrofes de ANTES DA ALVORADA
O sol declinante se esvai no poente,
a sombra dolente, no chão refletida.
Na pedra aquecida desaba o sereno
regando o terreno, trazendo mais vida.
A tarde desmaia no cimo da serra,
o cosmo descerra seu manto cinzento,
nas trevas, no vento, voeja a suinara
planando a seara, chilrando em lamento.
Na copa das matas, o bosque silente,
no solo, corrente, revela-se o rio.
O gado bravio recebe a neblina
que desce e se inclina nos meses de estio.
Desperta ridente o luzir da alvorada,
já é madrugada cansada e anciã.
Na brisa louçã outro dia amanhece,
o manto embranquece na luz da manhã.
As matas exalam perfumes amenos,
insetos pequenos parecem centelhas.
As flores vermelhas da fauna sonora,
na brisa da aurora, melífluas abelhas.
A flora desperta, o vento insemina,
a nuvem culmina girando no teto.
Cenário completo onde vejo e constato
que Deus é de fato o maior arquiteto.
No belíssimo poema de Patativa predominam as corruptelas, ou seja, palavras
destorcidas pelo falar trivial, popular, do camponês. No outro poema, temos
a linguagem erudita, clássica. Os dois apresentam as formas de expressão
genuínas da nossa região. Numa sinonímia particularmente nossa. Do povo
desbravador deste fabuloso Nordeste!
Muito obrigado!
(*) Carlos Severiano Cavalcanti
é presidente da Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda
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