Academia de Letras e Artes do Nordeste: mudança de página
Alexandre Santos*

 

Alexandre Santos

 

Introdução

Hoje, com alegria e sentimento do dever cumprido, transfiro oficialmente a presidência da Academia de Letras e Artes do Nordeste à nossa querida presidente Ana Maria César e, com orgulho, ingresso numa galeria preciosa para desfrutar a companhia Nicolino Limongi (1978/1979 – 1980/1981); Aluísio Furtado de Mendonça (1982/1983 – 1984/1985); Margarida Matheus de Lima (1986/1987); Benedito Cohen (1988/1989); Mozart Borges Bezerra (1990/1991); William Ferrer Coelho (1992/1993 – 1994/1995); Alvacir Raposo (1996/1997); a própria Ana Maria César (1998/1999 – 2000/2001); e Bernadete Serpa Lopes (2002/2003 – 2004-2005) - ícones da cultura nordestina, que já tiveram a honra de presidir a entidade.

O ingresso na Academia

Ambiente de cultura e arte, a Academia de Letras e Artes do Nordeste funciona como um chafariz de prazeres a seus membros, um prazer que passei a desfrutar em 31 de julho de 2003, quando nela ingressei acolhido pela própria Ana Maria César em memorável solenidade no auditório da Biblioteca Pública Estadual.

Naquela ocasião, no discurso de admissão, afirmei que “minha alma brilha de orgulho, refletindo a alegria daqueles que alcançam o elevado patamar das academias... [e em troca do] compromisso de defender as tradições culturais e contribuir para o desenvolvimento do patrimônio literário e artístico do Nordeste, [ganhava] a ventura de conviver com os gênios, magos, bruxos e santos que a integram, fazendo da arte e da magia um caminho que realiza o sonho e o encanto que jorra ou que se esconde em cada um de nós”.

E o inesquecível William Ferrer Coelho me iniciou num aprendizado que culminou em 25 de janeiro de 2006, quando assumi a presidência da Academia com algumas tarefas a realizar.

Naquele dia recebi a batuta que hoje entrego a Ana Maria César das mãos da presidente Bernadete Serpa para cumprir a jornada traçada em conjunto com meu mentor – que, infelizmente, não pode ficar para acompanhar a obra que ajudou a planejar.

Uma obra coletiva

E o trabalho começou.

Um trabalho que, a nível regional contou com a participação dos presidentes dos núcleos regionais – com destaque para os presidentes Joacil de Brito Pereira e, depois, de Joaquim Osterne, da Paraíba, e Petrúcia Camelo, das Alagoas – incluindo Marcelo Ribeiro, de Sergipe (cuja designação oficial permaneceu pendente, no aguardo da reforma estatutária).

Nestes dois mandatos, a administração da Academia contou com a colaboração dos acadêmicos Abdias Moura; Ana Maria César; Arnaldo Camelo; Bernadete Serpa; Carlos Cavalcanti; Cloves Marques; Cyl Gallindo; Diógenes da Cunha Lima; Djanira Silva; Edna Alcântara; Eric Dayan; Joacil de Brito Pereira; Lourdes Sarmento; Luciene Freitas; Lucilo Varejão Neto; Lúcio Ferreira; Luiz de Freitas; Milton Lins; Nazareth Gouveia; Nelson Saldanha; Olímpio Bonald Neto; Reinaldo Oliveira; Rosalia Dinelli; Telma Brilhante; Verônica Nery; Vital Corrêa de Araújo; Waldênio Porto; Wilton de Souza; e, ainda, dos saudosos Waldemar Lopes e William Ferrer

que, emprestando competência, experiência e outros atributos pessoais e relacionais, exerceram funções executivas ou em conselhos importantes, inclusive no Conselho de Articulação Regional, que ganhará maior importância com a eventual reforma estatutária.

Os encontros regionais

No primeiro mandato, abrindo uma seqüência que permanece em aberto, entre os dias 15 e 17 de fevereiro de 2007, a entidade se irmanou a Academia Pernambucana de Letras e a Sobrames e, em evento simultâneo ao VI Congresso da União de Médicos Escritores Lusófonos e ao II Congresso das Academias de Letras do Nordeste, realizou no Monte Hotéis o I Encontro Regional, reunindo confrades dos núcleos das Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Naquela ocasião, além de embeber a programação literária com brilhantes intervenções de alguns de seus membros e lançar a 15ª edição da revista ‘Letras & Artes’, a Academia inaugurou a galeria dos ex-presidentes.

No ano seguinte, em 2008, entre os dias 25 e 27 de janeiro, em concorrido evento que abriu o período comemorativo do 30º aniversário de sua fundação nas dependências da UBE, a Academia realizou o II Encontro Regional com a participação dos diversos núcleos estaduais. Na ocasião, foram apresentados trabalhos de excelência, incluindo ‘Regionalismo e Integração’, por Cyl Gallindo, ‘A presença francesa no Nordeste’, por Lucilo Varejão Neto, ‘Literatura popular: Paulo Nunes Batista: aparência e essência’, por Socorro Xavier, ‘Academia onipresente’, por Carlos Cavalcanti, ‘A vida e a obra de Violeta Formiga’, por Neide Santos, ‘A influência dos trópicos na poesia nordestina’, por Lourdes Sarmento, ‘A narrativa mítica do Nordeste em Gilvan Lemos’, por Telma Brilhante, ‘Participação das Academias de Letras em causas humanitárias’, por Yara Falcon; ‘A Literatura Alagoana no Contexto de Mundo’, por Petrucia Camelo; ‘Martha de Hollanda e os Saraus Literários’, por Luciene Freitas, ‘A linguagem luminosa de Carlos Augusto Viana’, pela confreira cearense Lourdes Leite Barbosa; ‘A poesia alagoana’, por Emmanuel Fay; ‘A palavra que move o mundo’, por Eric Dayan; ‘A importância da Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste’, por Waldênio Porto; e, ainda, ‘Cangaceiros e volantes’, pelo escritor convidado Geraldo Ferraz.

As comemorações dos 30 anos

Mas, as alegrias deste último período não pararam aí.

Tive a honra de presidir o período comemorativo do 30º aniversário – uma jornada que envolveu eventos de primeira grandeza, incluindo, além da realização do II Encontro Regional, lançamento da edição nº 16 da re-vista ‘Letras & Artes’, a entrega de Troféus Comemorativos e inúmeras homenagens, incluindo aquela prestada pela Câmara Municipal do Recife em sessão solene no dia 22 de maio de 2008.

O período comemorativo foi aberto oficialmente em 27 de janeiro de 2008 com a Sessão Solene dos 30 Anos nos jardins da UBE, quando confrades cearenses, potiguares, paraibanos, pernambucanos, alagoanos e sergipanos festejaram o espírito acadêmico regional, homenageando 30 entidades e 30 personalidades de importância regional com a entrega de magníficas esculturas concebidas pelo artista plástico Melchíades Montenegro e diplomas trabalhados pela arte do acadêmico Eric Dayan.

Naquela ocasião, com a participação de acadêmicos oriundos da maioria dos Estados nos quais estamos presentes, a Academia realizou seu II Encontro Regional: um evento que permitiu o intercâmbio do estado da arte que animava a entidade, constituindo grande jornada da cultura literária brasileira.

As revistas

Naquele período, consolidando a regularidade imaginada em 1982 pelo idealizador e criador, o presidente Aluízio Furtado de Mendonça, a Academia lançou as edições 15, 16, 17 e 18 da revista ‘Letras & Artes’ – uma publicação que, além de garantir a imortalidade que a entidade oferece a seus membros, funciona como elemento de consolidação conceitual de Academia Regional (abrindo espaço para o encontro de acadêmicos vinculados a todos os núcleos), de afirmação política regional (divulgado o que de melhor há na cultura nordestina) e, ainda, de integração cultural dos mundos lusófono e latino-americano, cumprindo um importante papel na formação e solidificação de uma articulação mundial de solidariedade entre os povos (é sob esta ótica que devem ser lidos os magníficos trabalhos, alguns deles em língua espanhola, dos acadêmicos Carlos Véjar, do México; José Kameniecki, Jorge Ariel Madrazo, Luisa Osdoba e Germán Cáceres, da Argentina; Carlos Aránguiz, do Chile; Elizabeth Díaz, de Cuba; Samuel Gonçalves, de Cabo Verde, e Luis Lourenço, de Portugal).

Os agradecimentos

As realizações da administração que se encerra não seriam possíveis sem a ajuda dos bons amigos.

Como já afirmei em outras ocasiões “a amizade é a alma da sociedade e o amigo é o anjo do bom convívio. Num mundo marcado por tantas disputas desnecessárias, a boa amizade lança as pontes que ultrapassam abismos e rios revoltos. Os amigos oferecem o consolo nos momentos de angústia, o ombro nos momentos de dificuldade e os braços no momento da construção. É nesse sentido que as parcerias e a cooperação se destacam como as grandes alavancas do progresso”.

Na galeria dos bons amigos da Academia de Letras e Artes do Nordeste figuram pessoas e instituições cuja ajuda têm sido fundamentais para a realização de muitos dos nossos empreendimentos. Entre eles, se destacam
a Biblioteca Pública Estadual de Pernambuco, que tem sido palco de muitos dos nossos eventos; a Prefeitura da Cidade do Recife, que tem zelado o marco comemorativo do nosso 25º aniversário instalado no Recanto do Poeta, no Parque Treze de Maio; a Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco e a Câmara Municipal do Recife, que vêm marcando as datas importantes para nossa academia com sessões especiais.

Como já fiz em outra oportunidade, aproveito este momento para destacar o apoio dado pela CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) – empresa, que, especialmente na gestão de Dilton da Conti, tem se constituído num valoroso esteio do setor cultural na nossa terra.

A renovação

Como um ser que se robustece incorporando a essência dos tempos, a Academia de Letras e Artes do Nordeste adquiriu novos talentos. Infeliz-mente este processo está associado à partida de confrades que, tendo cumprido a jornada entre nós, aceitaram o convite da Luz Maior e passaram a dar mais brilho ao firmamento, fazendo reluzir novas estrelas e abrindo caminho para novos companheiros.

Nestes últimos anos, o céu passou a incandescer as luzes levadas pelos imortais Alberto da Cunha Melo; Ayrton Bayma; Creuza Acioli; Dulcinéia de Oliveira; Geyde Costa Victor; Jamesson Ferreira Lima; José Rafael de Menezes; Lygia de Souza Leão; Manoel Correia de Andrade; Margarida Matheus; Pelópidas Soares; Ronildo Maia Leite; Waldemar Lopes; William Ferrer; Zilda Crisóstomo e Zuleno Pessoa que seguiram a trilha da eternidade, deixando um rastro de sonhos e de saudades.

Passado o momento mais duro da tristeza, a Academia renovou a alegria preenchendo as cadeiras vagas com outros luminares da arte nordestina; E, assim, o quadro de imortais incorporou o brilho de Cyl Gallindo, Elizabeth Brandt, Maria Valderez, Nazareth Gouveia, Rosalia Dinelli, Telma Brilhante; Albuquerque Pereira e Anete Costa. Incorporou, ainda, o talento de Bárbara Heliodora Jambo Lessa, Carlos Frederico Correia Silva, Cláudio Antonio Jucá Santos, Edilma Acioli de Melo Bomfim, Emanoel Mata da Fonseca; João Alfredo Ramalho, Maria Madalena de Oliveira Cunha, Marly Ribeiro de Souza Aprígio, Rita Braga Maciel Vilela e Roberval Max Soares Fidelis de Carvalho.

A Academia de Letras e Artes do Nordeste ainda alargou sua área de excelência incorporando sócios correspondentes que, além de enriquecer a solidez artística de seus quadros, marcam e robustecem a contribuição que a entidade pretende oferecer à integração cultural dos povos. Nesta perspectiva, admitiu mexicano Carlos Véjar, o chileno Carlos Aránguiz, a cubana Elizabeth Díaz, os argentinos Jorge Ariel Madrazo, José Kameniecki e Germán Cáceres e o caboverdense Samuel Gonçalves.

Nunca é demais louvar este conjunto de novos acadêmicos – luminares que honram patronos e predecessores com marcas de que lhes faz merecer o galardão da imortalidade.

A modificação estatutária pendente

Vale dizer que o ousado projeto de articulação regional da Academia, pensado ainda nas fases preparatórias em conjunto com o imortal Willi-am Ferrer Coelho, não conseguiu prosperar, sendo obra inconclusa.

Sonhada por muitos, a regionalização articulada da Academia não é de fácil implementação, pois depende, não só de intensa convivência entre os núcleos, mas, também, de modificações estatutárias capazes de restabelecer o espírito que animou os nossos pioneiros.

O otimismo que, passados os primeiros momentos da gestão, nos levou a realizar os Encontros Regionais e, mesmo, compor uma comissão para estudar eventuais modificações estatutárias, esbarrou na dificuldade para a conquista de consensos mínimos, esmaecendo o entusiasmo inicial. E o sonho de avançar no projeto de articulação regional da Academia, in-clusive com a aprovação de um novo Estatuto por ocasião de um III Encontro Regional, não se efetivou.
A realidade provou que, ao contrário do que pensávamos original-mente, o projeto não demonstrou viabilidade política e, embora importante, perdeu prioridade, ficando como idéia e desafio para as futuras administrações.

Elogios a nova gestão

Agora, neste momento, com alegria, transfiro a liderança da Academia para a acadêmica Ana Maria César – a nossa eterna presidente. Uma figura impar, que honra qualquer ambiente, entidade ou grupo do qual faça parte, não apenas pelo valor cultural, artístico e intelectual, mas, também, pelos valores morais que cultiva.
Pelos próximos anos, ajudando Ana Maria César a conduzir a Academia, estarão nossos confrades
Carlos Cavalcanti, poeta que, com a experiência de presidente da Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, exercerá a primeira vice-presidência da Academia; Olímpio Bonald Neto, ícone da cultura pernambucana, presidente emérito da UBE, líder da Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda, dirigente da Academia Pernambucana de Letras, que exercerá a 2ª vice-presidência. Cloves Marques, membro das Academias de Artes e Letras de Pernambuco, Academia Recifense de Letras, homem já provado no trabalho, que exercerá a secretaria-geral da entidade. A poeta Lourdes Sarmento, que ocupará a 1ª Secretaria. A escritora Edna Alcântara, que ocupará a 2ª Secretaria. O romancista Luiz Gonzaga Lopes, que ocupará a Tesouraria; e A poeta Rosa Lia Dinelli, que ocupará a vice-tesouraria.

A Academia como elemento de Afirmação Cultural do Nordeste

Embora pretenda cumprir objetivos artísticos retratando o brilho e a robustez cultural da região, a Academia de Letras e Artes do Nordeste é uma poderosa ferramenta política no esforço pela valorização da arte e do artista do Nordeste.

Em função da qualidade artística de seus membros e funcionar como plataforma de apresentação e divulgação de trabalhos de excelência e, portanto, retratar o brilho e a robustez cultural do Nordeste, a Academia arma a região com poderosa ferramenta política na luta pela valorização da arte e dos artistas regionais, desmoralizando observações e observadores que não reconhecem o valor da arte e dos artistas nordestinos e, ainda, o caráter multipolar do desenvolvimento cultural do País.

Assim, a Academia de Letras e Artes do Nordeste constitui importante ponta de lança do movimento de valorização da arte e do artista nordestinos na dura peleja que tenta para romper a camisa-de-força que há muito pretende sufocar as artes e os artistas brasileiros, impingindo-lhes esquemas unipolares, hegemônicos e unidirecionais centrados na região sudestina do País.

A Academia como elemento da Integração Cultural dos povos

Além de constituir magnífico instrumento de reafirmação artística da região, a Academia de Letras e Artes do Nordeste também oferece significativa contribuição ao processo de integração cultural da América Latina e do mundo lusófono, cumprindo importante papel na formação e solidificação de uma articulação mundial de solidariedade entre os povos.
Este objetivo – apontado claramente no perfil do quadro de sócios correspondentes – vem sendo cumprido pela revista ‘Letras & Artes’, que apresenta trabalhos de escritores brilhantes e que, por manter vínculos com entidades importantes nos mundos lusófonos e latino-americanos, trazem e levam elementos básicos da integração cultural almejada.

A Academia como elemento de Resistência Cultural

Nunca é demais repetir que, como fóruns de discussão da literatura e das demais formas de linguagem artística, as academias são trincheiras de luta em defesa da palavra, da arte e da comunicação.

Esta é uma luta importante.

Nunca é demais lembrar que a comunicação de massa pode exercer papel decisivo na definição da VERDADE e, portanto, na definição do Bem e do Mal, a palavra e a linguagem têm importância fundamental no eixo que move a eterna luta pelo poder. Nesta perspectiva, as academias de letras e artes oferecem grande contribuição ao resgate e preservação da harmonia social e beleza do viver.

Embora viva em permanente evolução, a mudança na língua não pode violar alguns limites. As palavras não devem ser manipuladas para atender a interesses espúrios. Não devem ser usadas de forma irresponsável para que assumam significados diversos dos seus, de modo a confundir as pessoas em sua boa fé.

Ao divulgar a boa literatura – seja ela de que gênero for –, as academias assumem a condição de baluarte da língua para conter a ação dos salteadores da palavra. Assim, o funcionamento das academias possibilita a livre expressão artística e cultural do povo e, nesse sentido, assume a condição de importante bastião de defesa da democracia, da liberdade e do bom relacionamento entre as pessoas.

Sendo importante valorizar as artes, de modo geral, e a literatura, de modo específico, para aumentar a resistência da sociedade contra as manipulações da palavra e da comunicação, as associações e academias artísticas devem figurar no rol das prioridades da sociedade e dos homens de boa vontade.

Esta é a nossa prioridade.

Viva a Academia de Letras e Artes do Nordeste!

Viva Ana Maria César!

 

(*) Discurso proferido pelo escritor Alexandre Santos, presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste nos biênios 2006-2007 e 2008-2009, em 27 de janeiro de 2009, por ocasião da solenidade de posse da escritora Ana Maria César