Uma Academia de todas as artes
Ana Maria César *

 

Ana Maria César

 

Na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Nabuco frisou que academias precisam de antiguidade. Peço vênia ao ilustre estadista para discordar. As academias precisam de sonhos e idealismo. De metas e congraçamento. A Academia de Letras e Artes do Nordeste completa hoje 32 anos. O que faz da Alane uma instituição especial não é, portanto, seu tempo de existência, mas sua magnitude: reúne todas as artes e dá identidade a uma das mais legítimas regiões do nosso país: o Nordeste, onde núcleos já foram instalados em Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba.

Portanto, estamos hoje aqui não só para comemorar um tempo, mas para estabelecer um espaço, no qual pretendemos fortalecer todas as manifestações artísticas e consolidar nosso mítico ofício de congraçar os diversos estados nordestinos. E digo nós, porque a Alane é feita não apenas de uma diretoria e de conselhos, mas de cada um que cultua as artes e o sentimento de nordestinidade. Por isso convoco um a um, membros efetivos, honorários, correspondentes, beneméritos para juntos trabalharmos no sentido de desenvolver e preservar nossos valores. E, sobretudo, para vivenciamos esse espaço de fraternidade que existe na Alane, o que a torna um verdadeiro oásis no deserto dos conflitos humanos.

São 32 anos de vida, nem sempre tão profícua, nem sempre tão atuante como a vemos hoje. Como toda instituição cultural nasceu, cresceu e se fortaleceu no amor às artes e no trabalho contínuo. Academia itinerante, viveu hiatos, por algum tempo quase acéfala, até tomar impulso e se firmar como uma das mais representativas entidades culturais do nosso tempo. E por ser itinerante, é universal, pois está onde seus membros se reúnem, hoje, aqui, amanhã na residência de algum acadêmico, ou numa biblioteca, depois em algum jardim, seja da UBE, desta Academia, do Parque Treze de Maio - isso aprendemos com Platão.

A Alane tem procurado de fato alargar seu espaço, integrando aos seus quadros escritores de outras latitudes. É uma forma de se universalizar. Além de ser uma academia de todas as artes, é também uma academia de todos os povos lusófonos, pois o que nos une, em última instância, é o latim, nossa língua-mãe.

Ao tomar posse na presidência da Alane, necessário se faz uma homenagem aos que aqui me precederam. O poeta Nicolino Limongi, fundador e Presidente de Honra; Aluísio Furtado de Mendonça, idealizador e editor dos primeiros números da Revista Letras e Artes; Margarida Matheus de Lima, bibliotecária; Benedito Cohen, médico e poeta; Mozart Borges Bezerra, médico, memorialista e contista; William Ferrer Coelho, poeta e Presidente Emérito; Alvacir Raposo, médico e poeta; Bernadete Serpa Lopes, escritora e poeta; Alexandre Santos, escritor e poeta, presidente a quem substituo. A todos esses o meu pleito de gratidão por terem impulsionado, cada um de forma especial, a Academia de Letras e Artes do Nordeste, esse farol que dá lento a meus dias e ilumina minhas noites.

Por duas vezes presidi a Alane - 1998/1999 – 2000/2001. Assumi em 1998 com a incumbência de comemorar os 20 anos da Academia e, sobretudo, retomar a publicação da Revista Letras e Artes, cujo último número fora editado em 1993. Naquela época não contávamos com a internet, poucos tinham acesso a computador, por isso coube a mim digitar toda a revista, editorada com o apoio da Bagaço. No segundo mandato, impunha-se lançar um outro número. Desta vez sem nenhum patrocínio, novamente digitei, revisei e consegui uma modesta publicação recolhendo antecipadamente o valor da revista entre os acadêmicos. Graças a Deus, a partir do n° 12, temos conseguido patrocínio e uma alta qualidade da impressão da nossa revista.

Na Academia de Letras e Artes do Nordeste exerci também os cargos de vice-presidente, 1ª Secretária, 2ª Secretária, além de coordenar o Conselho Editorial desde a reativação da revista. Agora, de volta à presidência, percebo que não sou eu que integro os quadros da Alane, ela é que integra minha vida, que me faz levantar cada dia, que ocupa meu derradeiro pensamento antes de adormecer, que me aponta o norte e o sul, que justifica a luta cotidiana. A Alane somos todos nós na contínua busca de uma dimensão onde a arte se derrama como ideal de vida.
Quero agradecer a confiança que me trouxe mais uma vez à presidência da Alane e dizer que nosso sucesso dependerá do esforço de cada um e da interação de todo o corpo acadêmico. Por isso convoco, não apenas os que integram a diretoria e os conselhos, mas todos que pertencem aos quadros desta Academia para trabalharmos no sentido de fortalecer todas as artes e dinamizar nossa integração regional, dando assim continuidade ao nosso ideal de Labor et Cultura, como registra nosso querido pendão.

 

(*) Discurso pronunciado em 27 de janeiro de 2010, aniversário de 32 anos da Alane e posse da Diretoria para o biênio 2010/2011